Os passeios de Velib por Paris - 1
Como citei rapidamente há um bom tempo, fiz mais uma matéria para a revista Próxima Viagem, desta vez com percursos de bicicleta por Paris. Posto, então, a primeira parte do texto original, bem modificado pelo editor da revista. É um percurso que sai de Montmartre, passa pelo Arco do Triunfo, vai ao Bois de Boulogne, Torre Eiffel, Hôtel des Invalides e termina no Petit Palais, na Champs Elysées. Eu mesmo cirei o trajeto e o fiz. Quem quiser ver a revista, ela está nas bancas neste momento. As fotos são minhas também.
Pegar uma Velib é fácil e barato
Desde o dia 15 de junho de 2007, o viajante ganhou mais uma forma de conhecer Paris. Através do sistema Velib, é possível alugar bicicletas e partir sem preocupações pelas ruas da cidade-luz. Com a diminuição da poluição, a prefeitura resolveu levar à frente o projeto, que foi bem recebido tanto pela população quanto pelos turistas. Para o lançamento, foram construídas 750 estações, com pouco mais de 10 mil bicicletas. No início de 2008 e com sucesso garantido, outros 250 postos e quase 15 mil bicicletas já eram oferecidos aos “clientes”.
A idéia, segundo a prefeitura, é ter uma base de Velib a cada 200 metros e também levar em breve a iniciativa para as cidades vizinhas a Paris. O resultado, no entanto, já é visível: hoje as milhares de bicicletas cinzas fazem parte da paisagem local e servem de transporte, para uns, e de lazer, para outros.
Para o visitante, pegar uma bicicleta é tarefa tranqüila e barata, basta encontrar uma estação e seguir os procedimentos, que podem ser lidos em 8 línguas, entre elas francês, inglês, espanhol e chinês, mas não em português. O aluguel é feito exclusivamente por cartão de crédito. Após escolher uma senha e a opção por passe de 1 dia (1 euro) ou 7 (5 euros), recebe-se um cartão e o passo seguinte é indicar a bicicleta livre (vale checar anteriormente se ela está em bom estado) e a retirar ao sinal do bipe.
Cabe, então, ao viajante regular a altura do assento, colocar seus pertences na cestinha e prestar atenção nas regras de trânsito, que valem igualmente para as bicicletas. E aproveite: são 371 quilômetros de ciclovias e, salvo raras exceções como Montmartre e os 19º e 20º arrondissement, ambos ao norte, a cidade é praticamente toda plana.
Ainda em relação às tarifas, além do cartão, paga-se 1 euro a cada meia hora de utilização, mas o usuário pode driblar este gasto devolvendo a bicicleta antes dos 30 minutos e a retirando novamente após digitar o código do cartão. Se está difícil achar uma estação ou se preferir mantê-la por todo dia, entre 5 a 10 euros deverão ser descontados na fatura do cartão. Nada assutador. E melhor: todas as Velibs vêm com cadeado e podem ser presas em postes e entradas de parques. Bom passeio!
Passeio 1: de Montmartre à Champs Elysées
Que tal conhecer o lado chique e até sair de Paris quase sem perceber?
Uma das boas dicas para iniciar passeios de bicicleta em Paris é partir de uma das poucas partes altas da cidade: Montmartre. Afinal, como diz o ditado, “para baixo, todo santo ajuda”. E se o turista está longe de ser um maratonista, nada melhor que descer tranqüilo, quase sem pedalar. Antes de iniciar o trajeto, porém, vale a pena conferir no topo do “monte” a linda e imponente Basílica de Sacre Coeur. Logo ao lado fica a Praça des Abesses (1), ponto inicial do percurso.
Após pegar a bicicleta, suba um pouco pela Rue des Abesses e vire à esquerda na Germain Pillon, uma descida brusca até o Boulevard de Clichy. À direita, atravesse a rua com cuidado e siga tranqüilamente pela ciclovia, passando pelas curiosas casas de Pigalle, entre elas o famoso Moulin Rouge. Ao fim, contorne à esquerda, atravesse a sempre animada Place de Clichy e desça por outra ciclovia no meio do Boulevard des Batignoles (2). O caminho é agradável, quase uma alameda exclusiva para ciclistas, e vai tranqüilo e sinalizado até o metrô Villiers.
Sempre reto, chega-se ao coração do 17º arrondissement, um dos mais chiques de Paris. Ao lado esquerdo, o belo Parque Monceau (3), que vale uma espiada, mas com a bicicleta ao lado: lá a preferência é dos pedestres. Ao seguir pelo Boulevard de Courcelles, o lado chique mostra suas caras, principalmente próximo à Praça de Ternes, de onde já é possível avistar o Arco do Triunfo (4). Por ali, aliás, o momento é propício a uma pausa em algum gostoso café com terraço da região, algo que não se encontrará tão facilmente mais à frente.
Na seqüência, a pausa é rápida para fotos do Arco e da Torre Eiffel, bem ao fundo. No entanto, a continuação exige cuidado, pois a rotatória da Praça Charles de Gaulle talvez seja uma das maiores e mais complexas do mundo. Se o viajante é do tipo prudente e não gosta de se arriscar, não tenha vergonha e cruze pelas faixas de pedestres da Avenue de Wagram até a Avenue Foch, onde se segue numa ciclovia até o Bois de Boulogne, atravessando o ainda mais chique 16º arrondissement.
No fim da larga avenida, chega-se ao interessante contraste do passeio: enquanto atrás ainda é possível avistar o Arco do Triunfo e a movimentação do centro, à frente cruzamos os limites da capital e fazemos uma pequena “viagem” até Boulogne Billancourt, uma das cidades da Grande Paris. É lá que passaremos pelo Bois de Boulogne (5), um dos pulmões da metrópole juntamente com o Bois de Vincennes. Ao passar pela Porte de Dauphine e seguir pela Route de Suresnes, já é possível respirar um ar mais puro e sentir a tranquilidade do campo.
O ciclista aqui é chamado a curtir o momento, a sentar perto do lago e a ver os pequenos barcos singrarem o espelho d´água. Igualmente agradável é prosseguir o passeio com calma, em ziguezague pelas alamedas, tendo como base a volta a Paris pela Porte de la Muette. Novamente dentro da capital, o caminho é a longa Avenue Henri Martin, que ainda mistura um clima bucólico com o vaivém de carros e ônibus. Num dos pontos mais chiques do percurso, passa-se pela Mairie do 16°, uma espécie de sede de regional, e chega-se à praça do Trocadero.
O endereço é famoso e a vista talvez seja uma das mais belas do planeta: entre o Palais de Chaillot e o prédio que abriga o Museu do Homem aparece a Torre Eiffel (6), com seus 320 metros de altura, monumento mais visitado do mundo. E fica uma dica importante ao cruzar a praça: mesmo que o momento seja de contemplação, não perca de vista a rua, afinal, os parisienses que avançam em carros não parecem se importar muito com a grandeza do que está ao lado.
Na Praça do Trocadero, duas opções para descer até as margens do Sena: uma delas é pelo próprio parque ao lado, passando pelas pequenas rampas nas extremidades de cada lado. Outra é seguir as ruas que contornam o Palácio, chegando na mesma Praça de Varsovie, à frente da Torre. Cruzando o rio, contorne pela parte esquerda, mais agradável, e avance devagar pelo Champs de Mars, sempre tomando cuidado com os milhares de turistas que estarão olhando para cima.
Após paradas - e muitas fotos -, vá ao fim do parque, à frente da Ecole Militaire, e vira à esquerda, onde já será possível ver a maravilhosa cúpula dourada do Hôtel des Invalides (7). No cruzamento, siga pela Avenue de Tourville até mais um dos prédios de cair o queixo de Paris. Lá, por exemplo, pode-se visitar o museu do Exército e a sala com as cinzas de Napoleão. Já na Rue de la Tour Maubourg, deve-se parar em uma das boas brasseries do 7° arrondissement, caso a fome esteja apertando. Mas não se preocupe: o passeio está quase no fim.
Um pouco à frente, a dica é virar à direita na Rue Saint Dominique e atravessar a Esplanade des Invalides. Subindo em direção ao Sena, chegamos à famosa Ponte Alexandre III, com seus ornamentos dourados, e passamos em seguida entre o Grand e o Petit Palais (8 ). Neste último, a visita das exposições permanentes é gratuita e um gostoso café perto do jardim serve como ótima pedida para encerrar a tarde. E para devolver a bicicleta, é só contornar o prédio à direita: já na Champs Elysées há uma estação. Nada mais prático.
1 - Place des Abesses

2 - Boulevard des Batignoles

3 - Parque Monceau

4 - Arco do Triunfo

5 - Bois de Boulogne

6 - Torre Eiffel

7 - Hôtel des Invalides

8 - Grand Palais

Mapa do Trajeto

Presente de primeiro ano
Talvez em outras épocas fosse motivo para comemorar em grande estilo, mas acabei simplesmente esquecendo que completei um ano aqui na França nesta semana. E só fui lembrado pelo post do Daniel, o Chéri à Paris, que curiosamente aterrissou por aqui três dias depois de mim.
E se ele fez uma bela duma retrospectiva em números, eu fico pensando aqui sozinho porque é que esqueci da data. Será que pela semana atribulada que passou? Ou talvez pelo fato de eu me sentir realmente em casa por aqui…Mas quem sabe mesmo porque havia acabado de celebrar o “nada” com a Manue e a levado num restaurante chique do lado da Torre Eiffel.
Enfim, o fato é que passou e agora não vou ficar lembrando de cada dia maravilhoso ou de sol. Muitas das coisas estão pingadas por aí no site e amanhã posto outro bom momento. E mesmo sem festa, ganhei um baita de um presente de mim mesmo: uma passagem para o Brasil. Mais do que certo, eu e a Manue desembarcaremos em São Paulo no dia 29 de junho, para ver se ainda encontro tempo de comemorar o meu aniversário de dois dias atrás (indireta aos amigos). E ficamos 1 mês e meio, sendo que por duas semanas encararemos outra empreitada pelo nosso paízão lindo, certamente à procura do verão fora de época do Nordeste.
Nazista do couscous
Antes de mais nada, duas rápidas considerações:
1- não, eu não errei a forma escrita do prato em questão. Aqui, couscous é assim mesmo, com dois “ous-ous”.
2 - tão diferente do nosso cuscuz em termos de gramática, o couscous marroquino não tem nada a ver com aquela torta de farinha de milho. Trata-se de uma refeição completa, com semoule - uma farinha, mas em grãos -, muito legume cozido e muita carne, variando entre carneiro, porco e frango.
Dito isso, passo à proposta do texto, que remete ao saudoso seriado norte-americano Seinfeld. Em um de seus melhores episódios (aliás, o quarto segundo eleição do “Bebê Diabo” Lello Lopes), os protagonistas encontram um restaurante tosco que vende a sopa mais deliciosa de toda Nova York. O problema é que o vendedor é um carrasco e exige respeito e regras durante a compra.
Assim, após enfrentar longa fila, é preciso ser rápido, praticamente jogar o dinheiro no balcão, falar sem gaguejos o sabor da sopa e passar rapidamente ao lado, sem mais perguntas. E aquele que ousa pedir pão recebe como resposta: “No soup for you!!!“, e o dinheiro de volta, sem dó.
Depois de enormes explicações, o fato é que encontrei o Soup Nazi francês. Descobri a pocilga que ele dirige e que nem nome tem em 2006, com meu primo Coaty. Fiquei encantado: quanta comida, quanto legume, quanta carne! Era um prato de caminhoneiro de luxo.
Em 2007 voltei aqui para morar e logo no primeiro dia com a Manue, passeando em Montmartre, lembrei daquela biboca e a convidei para comer. Sucesso! Ela comeu metade, mas adorou e ainda me achou super “cool” por conhecer a vida alternativa de Paris (mal sabia ela). E viramos cliente assíduos.
Com o passar do tempo, porém, começamos a perceber que o dono/garçom não era dos mais simpáticos. E a revelação veio num belo dia em que tivemos a idéia de pedir apenas um prato para dois, já que a Manue insistia em nunca terminar. Ao ouvir tal ousadia, o moço deu as primeiras mostras da alcunha que lhe viria a ser dada mais tarde.
Olhou feio, reclamou, disse que o prato já era barato e que não aceitaria. Insistimos também e falamos que pediríamos uma garrafa de vinho inteira, o que fez ele ceder e o que, depois, percebemos ter sido besteira em termos de preço. Ainda magoado, o nazista não se deu por vencido e nos trouxe um prato mixuruca, bem inferior ao normal. E no final ainda teve a cara de pau de perguntar se estava bom.
Ficamos bem p… e começamos a colocar em dúvida nossa volta. Mas não resistimos. Voltamos, duas, três vezes e recomendamos e levamos amigos, os pais da Manue também provaram, até que veio o dia em que a história mudou de vez. Na segunda passagem de uma amiga por aqui, ela mesmo sugeriu de retornar lá. E até reservamos, porque era verão e a biboca tem 6 mesas e está sempre lotada.
Chegamos no horário marcado e nada de mesa. Nós éramos três e ele nos ofereceu uma do lado da geladeira de vinhos, com dois lugares. Disse não e fomos convidados gentilmente a esperar. Havia mesas fora e sugerimos então sentar lá mesmo, o que ele não gostou nada. Se passasse a fiscalização, era multa na certa.
Ficamos bem uma hora até que ele, contrariado, aceitou a idéia. Pedimos e previmos novamente a tal “vingança”, mas vitória! Desta vez tudo certo, a delícia de sempre. O problema veio logo depois: mal terminávamos de raspar o prato (no meu caso, porque claro que a Manue deixou metade) e o nazista se aproximou com a conta e ficou resmungando do nosso lado. E como na época meu francês já estava afiado, entendi bem que ele falava da gente e chegou até pedir, nunca olhando no nosso olho, como todo nazista faz, que saíssemos rápido, porque ele estava correndo riscos de tomar multa.
Pagamos, disse um obrigado irônico e saímos pedindo desculpas à amiga. Foi a gota d’água. Decidimos nunca mais voltar e até achamos um ótimo japonês, não tão caro, que substituiu à altura. E passados cinco meses de jejum de comida marroquina, estávamos lá de novo, bem dizer à contra-gosto, após a estúpida idéia de mostrar a uns amigos um couscous maravilhoso e barato perto de casa.
Comemos e nos esbaldamos. Que saudade! Quase pedi desculpas ao nazista pela longa ausência. O Cabeção, meu amigo, passou mal por comer tão rápido e, mesmo tendo sido obrigado a visitar o banheiro da espelunca, coisa que eu nunca fiz, saiu rasgando elogios e falando que a passagem por Paris já estava ganha. E a gente nem tinha ido à Torre ainda.
Assim, fica a dica (ou não) para quem vier me visitar. O couscous é logo ao lado.
PS: aqui o link do post do Lello do Soup Nazi (http://bebediabo.zip.net/arch2008-01-01_2008-01-31.html#2008_01-08_00_55_57-3739347-0)

Descobri comentários positivos do Saul Galvão, jornalista do Estado de S. Paulo, que morreu de amores pela casa. Depois, li em matéria do Le Figaro que o Le Baratin merecia ao menos uma estrela no Michelin, mas que era esquecido exatamente por estar fora do “miolo” de Paris. Questão de marketing. Fui, então, checar.
Apesar da pompa aparente, a decoração é sóbria e aconchegante. Como estamos no jantar (o que em muitos casos significa triplo do preço do almoço), o mesmo menu completo sai por 31 euros, nada tão absurdo devido à localização, à qualidade da comida e à boa apresentação das mesas. E também por se tratar de um “restaurante gastronômico”, o garçom fica ao seu lado em caso de dúvida no menu.