Cotidiano non sense

Abril 9, 2008 at 10:53 pm (Brasil - França) (, , , , , , )

- Estava voltando de bicicleta para casa, lentamente porque conversava com um amigo, quando avisto não tão longe um grupo de manos ao redor de um banco. E percebo que um deles vem em minha direção, me encarando, situação que eu já considero bastante estranha e um tanto perigosa. Afinal, estou de bicicleta e eles são uns 8. O mano então pede para que eu pare, eu finjo que não escuto e ele finalmente me segura e interrompe minha passagem. E eu penso : “F… !”

Mas nos dois segundos que se seguiram - e que foram suficientes para lembrar de dois roubos de bicicleta em São Paulo - tudo mudou. O mano me pergunta com um grande sotaque típico de mano: “Te dou 100 conto se você arrebentar aquele cara”, apontando para outro mano, logo à sua frente, que sorria.

Ainda com a adrenalina em alta, mas já bem mais tranquilo, digo que “sem chance, mano”, enquanto o outro me propõe “mesmo 1.000″ . Eles riem, eu rio, meu amigo ri e todos continuam o que faziam antes da intervenção. Conclusão: mano de primeiro mundo é outra coisa.

- Hoje, saindo da biblioteca, vejo uma família simpática falando com seus filhinhos e os amiguinhos deles. O Jean Pierre, um gordinho com seus 10 anos, queria ir para a casa dos amiguinhos, mas o problema é que ele já tinha almoçado e os amiguinhos não.

Então o pai, obviamente, disse que o Jean Pierre poderia esperar e ir mais à tarde. E o Jean Pierre fala: “Mas eu podia realmoçar com eles”. Conclusão: Gordinho é gordinho em qualquer lugar do mundo e inventa até palavras para comer mais.

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Ir no jogo do PSG é…

Março 15, 2008 at 11:29 pm (Esportes) (, , , , , , )

…atravessar a cidade de metrô e ainda andar 10 minutos após sair da mesma estação de Roland Garros (Porte d’Auteuil).
…sentar na tribuna de imprensa sozinho e fingir que estou lá para uma cobertura importante para um jornal importante do Brasil, como se todos os jornalistas presentes não soubessem que o Souza, que (às vezes) joga no time, não vale uma cobertura.
…fingir que você está realmente torcendo para o PSG, colocando a mão na cabeça quando o Diané perde um gol, bufando quando o Clément erra um passe e assoviando quando o péssimo Landreau falha no gol.
…aproveitar os quitutes no intervalo, como os tradicionais macarrons (que pelo amor de Deus não é macarrão) de vários sabores, sonhos, coca, café…
…curtir o belo Parc des Princes e o ambiente, porque o jogo geralmente é ruim.
…depois de ver que o PSG vai perder, no máximo empatar, tentar não rir e não se empolgar tanto com os contra-ataques dos adversários. Tem muito jornalista torcedor do PSG ao lado.
…neste mesmo item, tentar pensar positivo, porque se eles caírem, nem jogo da primeira divisão da França eu vou poder ver em 2009.
…descer com os outros jornalistas e ir para a sala de entrevistas, apresentando o meu tíquete amarelo para o seguança com cara de brabo.
…sair do estádio e ver no relógio que são 22h e que você chegará em casa às 23h, no mínimo. Isso num sábado, sendo que a Manue queria sair.
…e pior: achar que tudo valeu a pena e já programar a próxima ida daqui a duas semanas.

PS: Ficar longe da bola e do time do coração é complicado!

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Futebol decadente e orgulho ferido

Março 13, 2008 at 2:59 pm (Brasil - França, Esportes) (, , , , , , , , )

Vi dois jogos de futebol nesta quarta-feira, ambos lamentáveis. Mas vamos nos ater principalmente ao primeiro deles, o da volta das oitavas-de-final da Copa da Uefa: Olympique de Marselha x Zénith. Lembro bem que a imprensa francesa foi ao delírio na partida de ida, vitória dos donos da casa, 3 a 1, com show de bola do quarteto Nyang-Cissé-Valbuena-Nasri. Só lamentaram um golzinho no final dos russos, nada que estragasse a festa e a boa série dos sulistas.

Ontem, entraram recuados e tomaram pressão do início ao fim. Era para ser uns 4 a 0, mas foi apenas 2 a 0, o suficiente para que o poderoso Zénith passasse às quartas e eliminasse o time de maior torcida da França. Que beleza!! E engraçado é ouvir e ler os jornais de hoje. A imprensa aqui é ainda mais coruja que no Brasil, fato até explicável: futebol também é paixão nacional, bons jogadores aparecem constantemente, mas a má fase é proporcional. E entra em jogo um outro problema: o orgulho francês.

Como é que uma nação poderosa, rica, com ilustres pensadores, centro do mundo (pelo menos para eles mesmo) não consegue ter times fortes como os da Inglaterra (malditos inlgeses!!), da Espanha, da Itália…e agora até da Rússia? Como é que os clubes daqui não têm dinheiro para nada e perdem seus maiores craques para Chelsea, Manchester, Real Madri, Bayern, Juventus, Milan, Barcelona, etc, etc ? Complicado. E solução a curto prazo parece não existir.

Vamos ter que continuar acompanhando e vibrando com um 0 a 0 entre Sochaux e Valenciennes (??), uma vitória emocionante por 1 a 0 do Rennes contra o Lille e o jogo mais empolgante em anos, o 3 a 2 do Le Mans contra o Toulouse, com golaço no último minuto de uns dos craques do campeonato, o brasileiro De Melo (???). Meu jesus!

 O outro jogo desta quarta….melhor nem se estender. São Paulo 2 a 1 no Barueri. Fui dormir tarde de novo, irritado e cada vez mais consciente de que esse ano já está perdido. Tanto aqui como no Brasil.

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Necessidades primárias

Março 11, 2008 at 1:07 am (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , , , , )

Curiosamente, foi a Manue que voltou a citar meu aniversário de um ano aqui em Paris. Ontem, quando falei que nem havia me dado conta do fato, ela me exigiu uma lista curta e sem muita enrolação das coisas que eu não conseguiria mais viver sem. Então, sem enrolação, reproduzo-a:

1 - O metrô parisiense (acho que nem preciso explicar o porquê, certo?)
2 - Bicicleta. E aqui, adoraria ter escrito Velib, mas como vocês sabem, acabei de comprar uma novinha e ando todo pimpão. O fato de Paris ser plana, pequena, ter bastante ciclovias e ser linda me deu uma motivação incrível e fez com que eu conseguisse esquecer daquele tal de carro, tão fundamental no Brasil.
3 - A maneira de comer. Claro que eu ainda choro quando vejo feijão, mas nunca pensei que fosse mudar tanto meu jeito de comer. E também de montar o prato, a mesa, o vinho, de exigir um pedaço de pão…hmmm, deu fome.
4 - Falando nele, o pão. Não dá, pão francês é só na França. Aqui, aliás, até português come baguete e não ousa abrir padaria.
5 - Queijo de cabra. A Manue tem ciúme de queijo de cabra desde o tempo em que eu disse que a verdadeira razão de eu estar aqui não era ela, e sim esta maravilhosa iguaria.
6 - Futebol brasileiro. Eu estou tentando ver os jogos aqui, mas com exceção do Lyon, o resto é sofrível. Foram mais quatro 0 x 0 na última rodada e o PSG que tá seguindo os mesmos passos do Curíntia. E antes de mais nada, outro viva aos criadores do SopCast e da AJTV.

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Presente de primeiro ano

Março 8, 2008 at 11:42 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , )

Talvez em outras épocas fosse motivo para comemorar em grande estilo, mas acabei simplesmente esquecendo que completei um ano aqui na França nesta semana. E só fui lembrado pelo post do Daniel, o Chéri à Paris, que curiosamente aterrissou por aqui três dias depois de mim.

E se ele fez uma bela duma retrospectiva em números, eu fico pensando aqui sozinho porque é que esqueci da data. Será que pela semana atribulada que passou? Ou talvez pelo fato de eu me sentir realmente em casa por aqui…Mas quem sabe mesmo porque havia acabado de celebrar o “nada” com a Manue e a levado num restaurante chique do lado da Torre Eiffel.

Enfim, o fato é que passou e agora não vou ficar lembrando de cada dia maravilhoso ou de sol. Muitas das coisas estão pingadas por aí no site e amanhã posto outro bom momento. E mesmo sem festa, ganhei um baita de um presente de mim mesmo: uma passagem para o Brasil. Mais do que certo, eu e a Manue desembarcaremos em São Paulo no dia 29 de junho, para ver se ainda encontro tempo de comemorar o meu aniversário de dois dias atrás (indireta aos amigos). E ficamos 1 mês e meio, sendo que por duas semanas encararemos outra empreitada pelo nosso paízão lindo, certamente à procura do verão fora de época do Nordeste.

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A estréia de um craque

Fevereiro 11, 2008 at 6:18 pm (Brasil - França, Esportes) (, , , , , )

Os novos contratados do PSGNeste final de semana fui pela primeira vez a um estádio de futebol aqui na França, graças à minha carteira de jornalista “pode tudo”. Fui acompanhar o glorioso clássico Paris Saint Germain x Le Mans, em mais uma mostra do espetacular nível do futebol francês. O jogo terminou com um placar mais do que esperado: 0 a 0, e a bola saiu de campo maltratada.

E assim como o Carnaval de Paris, valeu mais para sentir o clima e pela minha volta aos estádios após os 3 a 0 do São Paulo no rebaixado América de Natal (que brigaria pelo título aqui) em outubro. E foi ainda uma volta ao Parc des Princes, onde acompanhei em março de 1998 a vitória do PSG sobre o Lens por 2 a 1 na semifinal da Copa da Liga, quando o Raí ainda era ídolo aqui.

Deu para ver que a torcida continua em forma, gritando sem parar, enquanto os jogadores tropeçam na bola e lutam de forma desordenada para deixar a rabeira do campeonato. No setor de imprensa, ainda acompanhei os “melhores” momentos nas televisões equipadas ao lado dos bancos e fui para a sala de entrevistas tentar falar com os brasileiros que marcaram presença em campo.

Como todo grande time merece um camisa 10 de nível, o Paris Saint Germain trouxe o Souza, ex-São Paulo, pagando a fortuna de 3,5 milhões de euros. Detalhe, o Souza tem 29 anos e nunca tinha jogado no exterior, por motivos meio óbvios. Exageros à parte, ele sempre foi um carregador de piano e teve boas participações no Tricolor, mesmo que a torcida o desprezasse. Aqui, o sentimento era parecido: de descrença.

Ao conversar com um jornalista da France Footbal, ele admitiu que o investimento foi malvisto pela torcida, mas que havia ficado satisfeito com sua atuação nos primeiros 60 minutos em campo. Opinião repartida pelo técnico, Paul Le Guen. “Ele mostrou qualidade, esteve meio tímido nos primeiros 15 minutos, mas depois se movimentou bem. Precisa se entrosar mais”, disse ele, apontando ainda que o lado direito deve ficar melhor guarnecido já que ele fará dupla com o lateral Ceará (??).

Na saída do estádio, fui ver interessado uma multidão que cercava e tirava fotos com um moço em trajes de superstar. Curioso, perguntei a um torcedor do PSG quem era, e ele me respondeu: “De Melô”. Quem?? “De Melô, le brésilien”. O tal é nada menos que o Túlio de Melo, artilheiro do Campeonato Francês, que não jogou por estar contundido.

O Túlio era um mero desconhecido no Brasil que veio tentar a sorte aqui, deu certo e hoje posa de sapatos Dolce & Gabanna, cinto brilhante e óculos que o David Beckham ficaria com inveja. E ele já está de malas prontas para jogar na Itália.

Vi também na saída o habilidoso Ceará driblar os fãs do PSG com seu Audi TT preto roncando forte. Como diria o Narazaki, o Ceará deu sorte de ter jogado bem na final do Mundial contra o Barcelona, acertou um bom contrato e está aí ganhando a vida em Paris muito melhor que qualquer jornalista pé rapado que vibra ao entrar de graça no estádio. É mole?

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Mensagens rápidas

Janeiro 22, 2008 at 10:29 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , )

- Fui parado de novo nesta terça por um policial porque estava infringindo os códigos de trânsito. Com minha bicicleta! Isso mesmo, uma viatura se aproximou ao ver que eu furava lentamente um farol vermelho e me deu um baita sermão. Falou em 80 euros de multa, pra depois dizer que eu não repetisse o erro. Ô falta do que fazer!

- Disse “de novo” porque já havia me acontecido uma outra vez aqui em Paris, mas jurava que não tinha feito nada errado. O guarda insistiu, falou em multa mais leve, mas finalizou com um: “Não faça mais isso!”.

- Em Londres, em 2005, dias depois do atentado de julho, fui tirar fotos das estações que tinham sido atacadas. Idéia mais estúpida impossível…Fui abordado por dois guardas, acusado de terrorismo e só depois de muita conversa um deles descobriu que eu era brasileiro e aproveitou para perguntar coisas do Rio de Janeiro, porque o irmão dele estava indo para lá. Detalhe: o Jean Charles ainda não havia sido assassinado.

- Advinhem onde fui comer com a Manue na semana passada? Lá mesmo, no Nazista do Couscous. É que fui apresentar para um casal de amigos…E descobri o nome da pocilga: “Le Petit Blue“, que originalidade! O garçom/gerente, diga-se de passagem, estava um amor, mas descobri um nazista mais nazista do que ele: o cozinheiro. Ao final do jantar, ele interrompeu a produção dos pratos e veio gentilmente nos pedir para sair porque uma dezena de pessoas esperava lá fora e não tinha mais mesa. O verdadeiro nazista até com vergonha ficou.

- A Manue está jogando tênis cada vez melhor. Claro que pego leve, mas ela me fez correr neste domingo.

- Meu pudim de leite e meu feijão preto merecem destaque. Estão cada vez melhor. O strogonoff também arrancou suspiros.

- No último domingo estendi a cadeira de praia na sala, fiz pipoca, abri uma cerveja e assisti ao jogo do São Paulo na televisão da internet (AJTV, no Sopcast, pra quem quiser a dica). Gol aos 44 do segundo. Domingo tem mais contra o Corinthians.

- Vimos também dois programas na televisão sobre o Brasil. Um sobre comunidades nos Lençóis Maranhenses e outro sobre o Rio e a cultura do corpo. E já dá para ver que o Carnaval não passará batido, ao menos em menções nos jornais.

- Que dureza de semana. Trabalho pesado e sempre cedo por causa do Aberto da Austrália, curso de francês e noites curtas de sono. Quem acaba pagando é o blog.

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