Histórias mínimas

Fevereiro 29, 2008 at 1:16 am (Brasil - França) (, , , , , , )

Pedro resolveu morar em Londres e mal falava inglês. Aprendeu na marra, trabalhou como garçom de restaurante sujo, de prédio chique, aguentou muita encheção de saco, mas com as boas gorjetas viajou de navio e ajudou a família. Hoje, quer voltar, não aguenta o clima úmido e as noites às 15h30 da capital britânica.

Elena é européia, bem européia, passou um tempo numa boa escola nos EUA, aprendeu espanhol e italiano com extrema facilidade. Faltava um desafio: com um dinheiro juntado sem grandes esforços, viajou então ao Brasil, passou um mês perdida pelas ruas, mas aprendeu português e se encantou. Mas se desencantou mais tarde por esses desencontros da vida e dificilmente fará outra aventura dessas.

Carlota, parisiense convicta, está em dúvida, mas ela não estava pouco tempo atrás. Culpa do seu namorado, que a deixou sozinha e voltou para casa. O João, brasileiro típico, tentou, tentou, mas ele também se desencantou por aqui, com o clima (que parece o da capital britânica), com a falta de calor humano. A Carlota agora está pensando no que fazer porque se sente sozinha, mas não sabe se tem o mesmo ímpeto da Elena para largar tudo e viver este amor, que cresce pela saudade, mas que talvez nem seja tão grande assim.

Leco é um cara inteligente e que nem era tanto assim na época da escola. Mas virou um intelectual, discute política em inglês, espanhol, francês e, claro, português. Está bem, feliz ao lado da sua alma gêmea e, ao contrário do João, só volta ao Brasil para a festa do casamento (e para curtir um solzinho).

Audrey, francesa mas não de Paris, também arriscou, foi para o Brasil e conheceu seu grande amor, o Paulo. Hoje eles estão juntos na França, bem, mas discutem frequentemente se vale a pena ficar ou voltar. Ela quer ficar, tem a familia por aqui, mas de algum jeito adoraria poder conversar mais em português no dia a dia - culpa do Paulo que passou a falar francês - e dançar, dançar, dançar.

Cleber vem pra França a cada duas semanas. Vem para comprar produtos e revender no Brasil. E ganha dinheiro assim. Ele é amigo do Dacio, que trabalhou no metrô, nos esgotos e comeu o pão que o diabo amassou antes de se dar bem. Os dois se encontram sempre por aqui, enchem a cara e soltam boas risadas.

O Fernando, o Joca, a Claudia, a Joana, a Ana Paula, o Vladimir estão de malas pronta para a Europa, para Londres ou Paris, acham que é lá que está a vida boa, porque no Brasil não dá mais. A Sophie, o Mathieu, o Christian, a Oxana e o Antoine estão loucos para ir para o Brasil. Na Europa eles têm tudo, mas a vida ainda assim não é fácil. Falta tempero. E disseram para eles que no Brasil isso é o que mais tem.

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Mensagens rápidas

Janeiro 22, 2008 at 10:29 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , )

- Fui parado de novo nesta terça por um policial porque estava infringindo os códigos de trânsito. Com minha bicicleta! Isso mesmo, uma viatura se aproximou ao ver que eu furava lentamente um farol vermelho e me deu um baita sermão. Falou em 80 euros de multa, pra depois dizer que eu não repetisse o erro. Ô falta do que fazer!

- Disse “de novo” porque já havia me acontecido uma outra vez aqui em Paris, mas jurava que não tinha feito nada errado. O guarda insistiu, falou em multa mais leve, mas finalizou com um: “Não faça mais isso!”.

- Em Londres, em 2005, dias depois do atentado de julho, fui tirar fotos das estações que tinham sido atacadas. Idéia mais estúpida impossível…Fui abordado por dois guardas, acusado de terrorismo e só depois de muita conversa um deles descobriu que eu era brasileiro e aproveitou para perguntar coisas do Rio de Janeiro, porque o irmão dele estava indo para lá. Detalhe: o Jean Charles ainda não havia sido assassinado.

- Advinhem onde fui comer com a Manue na semana passada? Lá mesmo, no Nazista do Couscous. É que fui apresentar para um casal de amigos…E descobri o nome da pocilga: “Le Petit Blue“, que originalidade! O garçom/gerente, diga-se de passagem, estava um amor, mas descobri um nazista mais nazista do que ele: o cozinheiro. Ao final do jantar, ele interrompeu a produção dos pratos e veio gentilmente nos pedir para sair porque uma dezena de pessoas esperava lá fora e não tinha mais mesa. O verdadeiro nazista até com vergonha ficou.

- A Manue está jogando tênis cada vez melhor. Claro que pego leve, mas ela me fez correr neste domingo.

- Meu pudim de leite e meu feijão preto merecem destaque. Estão cada vez melhor. O strogonoff também arrancou suspiros.

- No último domingo estendi a cadeira de praia na sala, fiz pipoca, abri uma cerveja e assisti ao jogo do São Paulo na televisão da internet (AJTV, no Sopcast, pra quem quiser a dica). Gol aos 44 do segundo. Domingo tem mais contra o Corinthians.

- Vimos também dois programas na televisão sobre o Brasil. Um sobre comunidades nos Lençóis Maranhenses e outro sobre o Rio e a cultura do corpo. E já dá para ver que o Carnaval não passará batido, ao menos em menções nos jornais.

- Que dureza de semana. Trabalho pesado e sempre cedo por causa do Aberto da Austrália, curso de francês e noites curtas de sono. Quem acaba pagando é o blog.

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