Três matérias hoje no Libération mostram que o clima por aqui anda agitado em vários setores. Na política, o gênio do Le Pen atacou de novo. O líder da extrema direita daqui, que faz o Maluf parecer um Fidel Castro, reafirmou na última sexta-feira uma frase polêmica dita por ele mesmo em 1987. Tão horrível é esse cara que o próprio partido que ele fundou em 1972, o Front National, divulgou uma carta afirmando que esta opinião não refletia o ideal do grupo. Ah, a frase? Que as câmaras de gás não passavam de “um detalhe da história da Segunda Guerra Mundial”.
Já o Le Monde anda mal das pernas. Depois de os funcionários entrarem em greve há duas semanas e o jornal não sair apenas pela segunda vez em mais de 60 anos de história, nesta terça o mesmo grupo que liderou as paralisações exigiu da direção uma página inteira da edição de amanhã para explicar aos leitores o que está acontecendo por de verdade. Isso ou nova greve. A direção bateu o pé, disse que não aceita a idéia e que não tem outra solução para conter a crise do jornal a não ser demitir 129 funcionários.
Por fim, o Libé também traz um artigo sobre a crise do futebol francês. É que hoje tem rodada da Copa dos Campeões e eles mais uma vez têm de engolir três times ingleses (malditos ingleses !!). Agora, o ministro do esporte e ex-técnico da seleção de rúgbi (praticamente um gênio da estratégia) exigiu um estudo completo sobre a “competitvidade do futebol profissional francês”. E ele vai mais longe, quer que uma lei padronize os salários astronômicos dos jogadores em toda a Europa.
Bom, enquanto o Lyon luta para passar das oitavas, o Marselha perde pro Zenith na Copa da Uefa e o PSG luta pra não cair pra série B, eu vou pegar minha cerveja e torcer pro Manchester. Allez, Christiano Ronaldô !
…atravessar a cidade de metrô e ainda andar 10 minutos após sair da mesma estação de Roland Garros (Porte d’Auteuil).
…sentar na tribuna de imprensa sozinho e fingir que estou lá para uma cobertura importante para um jornal importante do Brasil, como se todos os jornalistas presentes não soubessem que o Souza, que (às vezes) joga no time, não vale uma cobertura.
…fingir que você está realmente torcendo para o PSG, colocando a mão na cabeça quando o Diané perde um gol, bufando quando o Clément erra um passe e assoviando quando o péssimo Landreau falha no gol.
…aproveitar os quitutes no intervalo, como os tradicionais macarrons (que pelo amor de Deus não é macarrão) de vários sabores, sonhos, coca, café…
…curtir o belo Parc des Princes e o ambiente, porque o jogo geralmente é ruim.
…depois de ver que o PSG vai perder, no máximo empatar, tentar não rir e não se empolgar tanto com os contra-ataques dos adversários. Tem muito jornalista torcedor do PSG ao lado.
…neste mesmo item, tentar pensar positivo, porque se eles caírem, nem jogo da primeira divisão da França eu vou poder ver em 2009.
…descer com os outros jornalistas e ir para a sala de entrevistas, apresentando o meu tíquete amarelo para o seguança com cara de brabo.
…sair do estádio e ver no relógio que são 22h e que você chegará em casa às 23h, no mínimo. Isso num sábado, sendo que a Manue queria sair.
…e pior: achar que tudo valeu a pena e já programar a próxima ida daqui a duas semanas.
PS: Ficar longe da bola e do time do coração é complicado!
Vi dois jogos de futebol nesta quarta-feira, ambos lamentáveis. Mas vamos nos ater principalmente ao primeiro deles, o da volta das oitavas-de-final da Copa da Uefa: Olympique de Marselha x Zénith. Lembro bem que a imprensa francesa foi ao delírio na partida de ida, vitória dos donos da casa, 3 a 1, com show de bola do quarteto Nyang-Cissé-Valbuena-Nasri. Só lamentaram um golzinho no final dos russos, nada que estragasse a festa e a boa série dos sulistas.
Ontem, entraram recuados e tomaram pressão do início ao fim. Era para ser uns 4 a 0, mas foi apenas 2 a 0, o suficiente para que o poderoso Zénith passasse às quartas e eliminasse o time de maior torcida da França. Que beleza!! E engraçado é ouvir e ler os jornais de hoje. A imprensa aqui é ainda mais coruja que no Brasil, fato até explicável: futebol também é paixão nacional, bons jogadores aparecem constantemente, mas a má fase é proporcional. E entra em jogo um outro problema: o orgulho francês.
Como é que uma nação poderosa, rica, com ilustres pensadores, centro do mundo (pelo menos para eles mesmo) não consegue ter times fortes como os da Inglaterra (malditos inlgeses!!), da Espanha, da Itália…e agora até da Rússia? Como é que os clubes daqui não têm dinheiro para nada e perdem seus maiores craques para Chelsea, Manchester, Real Madri, Bayern, Juventus, Milan, Barcelona, etc, etc ? Complicado. E solução a curto prazo parece não existir.
Vamos ter que continuar acompanhando e vibrando com um 0 a 0 entre Sochaux e Valenciennes (??), uma vitória emocionante por 1 a 0 do Rennes contra o Lille e o jogo mais empolgante em anos, o 3 a 2 do Le Mans contra o Toulouse, com golaço no último minuto de uns dos craques do campeonato, o brasileiro De Melo (???). Meu jesus!
O outro jogo desta quarta….melhor nem se estender. São Paulo 2 a 1 no Barueri. Fui dormir tarde de novo, irritado e cada vez mais consciente de que esse ano já está perdido. Tanto aqui como no Brasil.
Curiosamente, foi a Manue que voltou a citar meu aniversário de um ano aqui em Paris. Ontem, quando falei que nem havia me dado conta do fato, ela me exigiu uma lista curta e sem muita enrolação das coisas que eu não conseguiria mais viver sem. Então, sem enrolação, reproduzo-a:
1 - O metrô parisiense (acho que nem preciso explicar o porquê, certo?)
2 - Bicicleta. E aqui, adoraria ter escrito Velib, mas como vocês sabem, acabei de comprar uma novinha e ando todo pimpão. O fato de Paris ser plana, pequena, ter bastante ciclovias e ser linda me deu uma motivação incrível e fez com que eu conseguisse esquecer daquele tal de carro, tão fundamental no Brasil.
3 - A maneira de comer. Claro que eu ainda choro quando vejo feijão, mas nunca pensei que fosse mudar tanto meu jeito de comer. E também de montar o prato, a mesa, o vinho, de exigir um pedaço de pão…hmmm, deu fome.
4 - Falando nele, o pão. Não dá, pão francês é só na França. Aqui, aliás, até português come baguete e não ousa abrir padaria.
5 - Queijo de cabra. A Manue tem ciúme de queijo de cabra desde o tempo em que eu disse que a verdadeira razão de eu estar aqui não era ela, e sim esta maravilhosa iguaria.
6 - Futebol brasileiro. Eu estou tentando ver os jogos aqui, mas com exceção do Lyon, o resto é sofrível. Foram mais quatro 0 x 0 na última rodada e o PSGque tá seguindo os mesmos passos do Curíntia. E antes de mais nada, outro viva aos criadores do SopCast e da AJTV.
Só uma última passagem antes de ir dormir: depois de três partidas, o Paris Saint Germain ganhou. Fez 3 a 2 no Auxerre no Parc des Princes e foi à final da Copa da Liga, mesmo com uma falha bisonha do goleiro Landreau. E não que eu tenha participação direta no resultado, mas nas duas últimas vezes em casa, o PSG havia empatado. E foram as duas vezes que eu estive pesente no estádio. Será que depois desta classificação vão bloquear minha carteira de jornalista internacional?
E por fim, o glorioso Souza começou no banco hoje. Tá feio o negócio, três jogos e já perceberam que o investimento de 3,5 mi de euros foi exagerado. Ele anda apagadinho, não sei se vai conseguir virar a fase. Será que um dia o PSG vai contratar alguém decente de novo pra que eu possa virar correspondente internacional? Nessa fase, até o Ronaldo podia ficar por aqui…
Veja o lance bisonho do Landreau. E reparem também na narração, o tradicional “Oh la la la la”, frase preferida de 10 entre 10 franceses.
Neste final de semana fui pela primeira vez a um estádio de futebol aqui na França, graças à minha carteira de jornalista “pode tudo”. Fui acompanhar o glorioso clássico Paris Saint Germain x Le Mans, em mais uma mostra do espetacular nível do futebol francês. O jogo terminou com um placar mais do que esperado: 0 a 0, e a bola saiu de campo maltratada.
E assim como o Carnaval de Paris, valeu mais para sentir o clima e pela minha volta aos estádios após os 3 a 0 do São Paulo no rebaixado América de Natal (que brigaria pelo título aqui) em outubro. E foi ainda uma volta ao Parc des Princes, onde acompanhei em março de 1998 a vitória do PSG sobre o Lens por 2 a 1 na semifinal da Copa da Liga, quando o Raí ainda era ídolo aqui.
Deu para ver que a torcida continua em forma, gritando sem parar, enquanto os jogadores tropeçam na bola e lutam de forma desordenada para deixar a rabeira do campeonato. No setor de imprensa, ainda acompanhei os “melhores” momentos nas televisões equipadas ao lado dos bancos e fui para a sala de entrevistas tentar falar com os brasileiros que marcaram presença em campo.
Como todo grande time merece um camisa 10 de nível, o Paris Saint Germain trouxe o Souza, ex-São Paulo, pagando a fortuna de 3,5 milhões de euros. Detalhe, o Souza tem 29 anos e nunca tinha jogado no exterior, por motivos meio óbvios. Exageros à parte, ele sempre foi um carregador de piano e teve boas participações no Tricolor, mesmo que a torcida o desprezasse. Aqui, o sentimento era parecido: de descrença.
Ao conversar com um jornalista da France Footbal, ele admitiu que o investimento foi malvisto pela torcida, mas que havia ficado satisfeito com sua atuação nos primeiros 60 minutos em campo. Opinião repartida pelo técnico, Paul Le Guen. “Ele mostrou qualidade, esteve meio tímido nos primeiros 15 minutos, mas depois se movimentou bem. Precisa se entrosar mais”, disse ele, apontando ainda que o lado direito deve ficar melhor guarnecido já que ele fará dupla com o lateral Ceará (??).
Na saída do estádio, fui ver interessado uma multidão que cercava e tirava fotos com um moço em trajes de superstar. Curioso, perguntei a um torcedor do PSG quem era, e ele me respondeu: “De Melô”. Quem?? “De Melô, le brésilien”. O tal é nada menos que o Túlio de Melo, artilheiro do Campeonato Francês, que não jogou por estar contundido.
O Túlio era um mero desconhecido no Brasil que veio tentar a sorte aqui, deu certo e hoje posa de sapatos Dolce & Gabanna, cinto brilhante e óculos que o David Beckham ficaria com inveja. E ele já está de malas prontas para jogar na Itália.
Vi também na saída o habilidoso Ceará driblar os fãs do PSG com seu Audi TT preto roncando forte. Como diria o Narazaki, o Ceará deu sorte de ter jogado bem na final do Mundial contra o Barcelona, acertou um bom contrato e está aí ganhando a vida em Paris muito melhor que qualquer jornalista pé rapado que vibra ao entrar de graça no estádio. É mole?