Parisiense, mal-humorado por natureza

Abril 27, 2008 at 9:49 am (Brasil - França) (, , , , , , )

Seja em posts de outros blogs, seja em conversas “secretas”, os brasileiros que moram aqui acabam uma hora concordando que parisiense é um povinho chato que vive mal-humorado. Eu não fujo da regra, tenho a convicção de que falta um pouco de vida nos coraçõezinhos dos meus vizinhos, talvez em parte pela falta de sol.

Para corroborar essa tese, uma propaganda da Citroën me chamou a atenção, porque resume bem esse estilo. Num posto de gasolina, dois homens enchem o tanque de seus carros, um chique e outro bem simples. O dono do carro pequeno canta sem parar e encerra a tarefa bem antes. É quando o outro solta aquela bufada típica do francês emburrado: “Pffff, ça va, c’est bon….p**tain!“, deixando claro que, aqui, ninguém tem direito de estar feliz e de cantar sozinho.

Em outra série, agora do jornal Le Parisien, eles próprios tiram sarro de tal chatice. Pra entender o comercial, é bom explicar apenas a frase final, em que o locutor diz: “Parisien, vale mais ter em jornal”. Cliquem e vejam.

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Histórias mínimas

Fevereiro 29, 2008 at 1:16 am (Brasil - França) (, , , , , , )

Pedro resolveu morar em Londres e mal falava inglês. Aprendeu na marra, trabalhou como garçom de restaurante sujo, de prédio chique, aguentou muita encheção de saco, mas com as boas gorjetas viajou de navio e ajudou a família. Hoje, quer voltar, não aguenta o clima úmido e as noites às 15h30 da capital britânica.

Elena é européia, bem européia, passou um tempo numa boa escola nos EUA, aprendeu espanhol e italiano com extrema facilidade. Faltava um desafio: com um dinheiro juntado sem grandes esforços, viajou então ao Brasil, passou um mês perdida pelas ruas, mas aprendeu português e se encantou. Mas se desencantou mais tarde por esses desencontros da vida e dificilmente fará outra aventura dessas.

Carlota, parisiense convicta, está em dúvida, mas ela não estava pouco tempo atrás. Culpa do seu namorado, que a deixou sozinha e voltou para casa. O João, brasileiro típico, tentou, tentou, mas ele também se desencantou por aqui, com o clima (que parece o da capital britânica), com a falta de calor humano. A Carlota agora está pensando no que fazer porque se sente sozinha, mas não sabe se tem o mesmo ímpeto da Elena para largar tudo e viver este amor, que cresce pela saudade, mas que talvez nem seja tão grande assim.

Leco é um cara inteligente e que nem era tanto assim na época da escola. Mas virou um intelectual, discute política em inglês, espanhol, francês e, claro, português. Está bem, feliz ao lado da sua alma gêmea e, ao contrário do João, só volta ao Brasil para a festa do casamento (e para curtir um solzinho).

Audrey, francesa mas não de Paris, também arriscou, foi para o Brasil e conheceu seu grande amor, o Paulo. Hoje eles estão juntos na França, bem, mas discutem frequentemente se vale a pena ficar ou voltar. Ela quer ficar, tem a familia por aqui, mas de algum jeito adoraria poder conversar mais em português no dia a dia - culpa do Paulo que passou a falar francês - e dançar, dançar, dançar.

Cleber vem pra França a cada duas semanas. Vem para comprar produtos e revender no Brasil. E ganha dinheiro assim. Ele é amigo do Dacio, que trabalhou no metrô, nos esgotos e comeu o pão que o diabo amassou antes de se dar bem. Os dois se encontram sempre por aqui, enchem a cara e soltam boas risadas.

O Fernando, o Joca, a Claudia, a Joana, a Ana Paula, o Vladimir estão de malas pronta para a Europa, para Londres ou Paris, acham que é lá que está a vida boa, porque no Brasil não dá mais. A Sophie, o Mathieu, o Christian, a Oxana e o Antoine estão loucos para ir para o Brasil. Na Europa eles têm tudo, mas a vida ainda assim não é fácil. Falta tempero. E disseram para eles que no Brasil isso é o que mais tem.

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