Transcrevo abaixo um texto publicado no Courrier International - traduzido de uma publicação argentina - sobre o ilustríssimo presidente da República da França, monsieur Nicolas Sarkozy. Não que não tenha novidades minhas daqui, mas achei oportuno dividir estas sábias palavras. E aproveito também para estudar, já que o texto não é nada fácil. Então vamos a ele.
“No meio do século passado, um frustrado candidato à presidência colombiana se perguntava: ‘Poder, para que ele serve?’ Aparentemente, ele nunca obteve a resposta para esta questão e morreu sem ter resolvido o enigma. Hoje, o presidente francês parece não ter a menor dúvida: o poder serve para gozar (aqui um jogo de palavras com jouir, que pode ser também desfrutar, usufruir), inclusive na cama, com lençóis em desordem como testemunhas de jogos amorosos.
No tabuleiro de xadrez da política mundial, não parece existir um chefe de Estado mais satisfeito, um homem que aproveita bem sua exposição na mídia, um macho exultante de suas conquistas. Nicolas Sarkozy se diverte como nunca e quer mostrar até que ponto o poder lhe enche de energia, para desejar mais e ser desejado, para fazer de seu mandato uma festa permanente, uma embriaguez dele próprio, uma ereção.
Na França e nos quatro cantos do mundo, o último episódio de felicidade sarkoziana eclipsou os deleites anteriores. Seu prazer atual é infinito, profundo, franco e massivo. Graças ao poder, o presidente está, de novo, apaixonado: ele conseguiu seduzir Carla Bruni, uma ex-top model e cantora de segunda linha, importante ícone da elite cultural (jet-set, na verdade, algo mais popularesco como “chiques e famosos”) parisiense e com quem passeia de mãos dadas à luz do dia e à frente das câmeras dos jornalistas.
(…) Sarkozy escolheu a decoração perfeita para revelar seu novo idílio: junto de sua radiante acompanhante, ele se deixou filmar num mundo de fantasia plena, de mocinhos e bandidos, onde a realidade é tão fácil, tão infantil, tão propícia ao sentimentalismo: a Disneylândia. É, então, em um local senão falso, mas virtual, que Mickey Sarkozy quis viver seu sonho. Lá, num universo colorido e eficaz, onde tudo funciona maravilhosamente, onde a justiça é verdadeiramente justa e o amor é melado (sirupeux, algo que vem de xarope e é mais que doce), onde a gente pode esquecer que os adultos são enviados ao Iraque para matar os vilões.
Mas, evidentemente, como um bom exemplo de homem de direita que é, Sarkozy recusa o conceito de luta de classes herdada do século 19. O que lhe interessa é mesmo o conceito pré-histórico de “luta dos sexos”, segundo o qual os machos que dominam um território fértil têm direito a todas as mulheres que estejam ao seu alcance. Com ou sem Carla, Sarkozy terá sempre a seu dispor algumas belas jornalistas da imprensa parisiense que não hesitarão em conhecer sua rica casa (grotte, no sentido literal, gruta).
O segundo capítulo da novela entre Nicolas e Carla aconteceu no fim de 2007, diante de outros céus. O presidente escolheu a decoração suntuosa (e talvez holywoodiana) de Louxor, no Egito. O mais bonito templo da antiguidade, Karnak, e as tumbas dos faraós serviram como pano de fundo para mais uma rodada de sorrisos, passeios, mãos dadas, tudo, evidentemente, com a presença de uma câmera e de fotógrafos. Um festa digna de alguém que se ama como Nicolas Sarkozy. Em resumo, depois de saber que Sarkozy aprecia a felicidade e o prazer que o poder proporciona, acabamos de descobrir que ele não tem nenhum senso de ridículo.
Os franceses se perguntam com todo direito quanto vai lhes custar esta viagem de Sarko ao Egito, com seus vinte quartos alugados em um hotel de luxo e aviões de caça escoltando o jato presidencial. Porque para ir, Sarkozy e Carla estiveram a bordo de um jato particular pertencente a Vincent Bolloré, um dos chefes de um instituto de pesquisa que continua a colocar Sarkozy no primeiro lugar das personalidades preferidas dos franceses. Aliás, o primeiro lugar é o único que vale para um homem que se move como uma marionete, avança como um tanque de guerra e ama como uma máquina de dinheiro (aquelas máquinas de bingo, com uma alavanca). Porque, enfim, sozinhos os sortudos faturam o grande prêmio. Os outros olham Nicolas Sarkozy triunfar pela televisão.