O orgulho de ser (quase) francês

Outubro 3, 2008 at 12:33 pm (Brasil - França, Política) (, , , , , , )

Tudo ia bem, sem acidentes de percurso, sem encheções de saco, sem perguntas intrusivas, sem taxas para pagar. Mas como diz o velho e bom ditado, “esmola demais o santo desconfia”. Tanto que na última quinta-feira, um dia depois de passar pela entrevista na Polícia Federal daqui, recebi uma carta me convocando para uma visita médica, junto de um papel intitulado “Contrato de recepção e integração” e um boleto bancário com o valor de 275 euros a ser pago em nome do Estado da França.

Para explicar melhor, retorno ao Brasil, mês de julho. Na preparação para o casamento, fomos ao Consulado da França em São Paulo e passamos por duas entrevistas com a responsável pela união civil de franceses e brasileiros. Fomos armados até os dentes de papéis, provas, cartas de amor, fotos, mas nada foi preciso. Por incrível que pareça, a moça não só nos acolheu com sorrisos, como agiu de forma competente e rápida.

Mesmo com as idas e vindas dos papéis para a França, conseguimos acertar tudo em tempo recorde, tirei meu visto de conjoint de français e parti tranqüilo para Paris. Na primeira ida à polícia – novamente preparados para a guerra -, fomos surpreendidos com nova boa recepção, mais sorrisos e uma carte de séjour temporária, que me dava o direito inclusive de trabalhar e viver normalmente.

Veio, finalmente, a entrevista que cito no primeiro parágrafo. A mais importante, a definitiva. Mais uma vez quase nada a declarar – com exceção das duas horas de espera – e apenas a indicação : ”Você deverá passar pela visita médica e aí sim pegará tua carte de séjour definitiva”. Simples assim ? E mais : “Sua carte de séjour deverá ser renovada a cada ano e, após três renovações, ela valerá por 10 anos”. Mas vocês são muito bonzinhos !

No fatídico dia seguinte, abro o envelope com meu nome e me deparo com os formulários e o boleto bancário. Obviamente o valor abusivo me choca (são 275 euros apenas na primeira vez ; depois, cai para simbólicos 70 euros. Ufa !), mas o tal “contrat d’accueil et d’intégration“, imposto pelo então Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, é de um teor ofensivo. Vamos, então, a ele e na íntegra.

Na capa, abaixo do título e da imagem da Liberté (a mesma da estátua de Manhattan, o que explica muita coisa), temos o texto : “Você está autorizado a morar na França. Para facilitar sua integração, o Estado propõe que você assine o contrato de recepção e integração.

No verso, seguimos com os esclarecimentos : Você irá se beneficiar de – uma reunião de recepção coletiva (oba, festa !! Eu levo os brigadeiros) ; de uma visita médica, que permitirá a entrega de sua carte de séjour ; de uma entrevista individual permitindo neste caso particular de conhecer seu nível de conhecimento da língua francesa ; de uma reunião de formação cívica, que apresentará os direitos fundamentais, os princípios e valores da República Francesa ; de uma sessão de informações sobre a vida na França ; eventualmente, de uma entrevista com um assistente social e de informações sobre o acesso ao emprego e à formação profissional (reparem que em um dos itens mais importantes, o acesso ao trabalho, há anteriormente o termo “eventualmente”).

Você se responsabilizará por : participar da reunião de formação cívica e da sessão de informações sobre a vida na França ; por seguir a formação linguística que convier a seu caso específico e a se apresentar ao exame para a obtenção do diploma inicial de língua francesa (DILF).

Ao cumprir estes pontos, voce receberá um atestado de presença.

Em caso de não respeitar estas obrigações, o responsável poderá anular o contrato, recusar a renovação de sua carte de séjour ou a entrega da carta de residente.

O respeito ao contrato e às obrigações é de extrema importância para que você encontre seu lugar dentro da sociedade francesa.

Ao ler tudo isso, me lembrei daquela cena do Tropa de Elite em que o Capitão Nascimento diz aos berros aos candidatos a entrar no Bope: “NUNCA SERÁ!!!”. Mas no fundo, no fundo, só posso me sentir honrado de fazer parte de um país tão íntegro e acolhedor. Obrigado, França ! Obrigado Monsieur Le Présidente de la Republique ! Vocês salvaram mais um ser humano da miséria e da ignorância.

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Ronaldo, herói dos franceses carecas

Maio 4, 2008 at 7:51 pm (Brasil - França) (, , , , , , )

Mesmo sem nunca ter jogado no Paris Saint Germain, ou talvez por ter tido aquela crise histérica antes da final de 98, aqui em Paris o Ronaldo continua um herói. Seja no hospital La Pitié Salpétrière, na Rue Saint Denis (a dos travestis de Paris), ou nas farmácias, a gente ouve bastante falar do fenômeno. A prova está aí embaixo, na propaganda de Crescina, provavelmente a nova geração do Instant Hair Plus. A frase ao lado é curiosa: “Você tem pouco cabelo? Ronaldo aconselha Crescina R5“. Dá-lhe garoto!

Ronaldo cabeludo

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Parisiense, mal-humorado por natureza

Abril 27, 2008 at 9:49 am (Brasil - França) (, , , , , , )

Seja em posts de outros blogs, seja em conversas “secretas”, os brasileiros que moram aqui acabam uma hora concordando que parisiense é um povinho chato que vive mal-humorado. Eu não fujo da regra, tenho a convicção de que falta um pouco de vida nos coraçõezinhos dos meus vizinhos, talvez em parte pela falta de sol.

Para corroborar essa tese, uma propaganda da Citroën me chamou a atenção, porque resume bem esse estilo. Num posto de gasolina, dois homens enchem o tanque de seus carros, um chique e outro bem simples. O dono do carro pequeno canta sem parar e encerra a tarefa bem antes. É quando o outro solta aquela bufada típica do francês emburrado: “Pffff, ça va, c’est bon….p**tain!“, deixando claro que, aqui, ninguém tem direito de estar feliz e de cantar sozinho.

Em outra série, agora do jornal Le Parisien, eles próprios tiram sarro de tal chatice. Pra entender o comercial, é bom explicar apenas a frase final, em que o locutor diz: “Parisien, vale mais ter em jornal”. Cliquem e vejam.

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Auto-promoção 1

Abril 14, 2008 at 8:20 am (Brasil - França) (, , , , , )

Vai, quem não gosta de fazer uma propagandinha pessoal? Segue aí a matéria que saiu no site Comunique-se (http://www.escoladecomunicacao.com.br/news/news.asp?id=107) com alguns blogueiros do mundo todo, incluindo eu.

Jornalistas brasileiros usam blogs para contar experiências no exterior

Num país distante, com língua e sociedade diferentes, o blog é uma opção para o jornalista se aproximar do seu idioma nativo e compartilhar com seus leitores as experiências de lidar com uma nova cultura.

Foi assim que o blog do freelancer, Richard Amante, há quase um ano na China, ficou conhecido. Amante na China, traz posts sobre a experiência do jornalista neste país, além da Mongólia. “Só fiz divulgação para os meus amigos. Hoje tenho acessos do mundo inteiro, recebo mensagens diariamente, e quem quer vir pra China encontra no blog um espaço pra tirar dúvidas e preparar melhor a viagem”, relata.

A partir da próxima semana Amante deve lançar outro blog, o Amante em Pequim, parte do trabalho que faz como freelancer para o SporTV e Globoesporte.com.

Para Amante, a liberdade de expressão, que sempre esteve atrelada aos blogs, na China é algo frágil. Conta que a cobertura é muito limitada no país. “A Internet é muito censurada, sites e blogs saem do ar a todo instante sem explicação nenhuma. Revistas são distribuídas com páginas arrancadas, canais de TV são bloqueados, mas já me disseram que foi pior”, relata.

Paris na Linha, o blog de Elói Silveira, conta as experiências do jornalista na capital francesa. Elói já trabalhou no UOL Esporte, Gazeta Esportiva, Tenisbrasil e agora é freelancer da área esportiva e de revistas de viagem.

“Acho que todo jornalista é, naturalmente, um aficionado por escrever, então ter um blog de assuntos diversos pode ser importante para que ele quebre a seriedade de sua profissão, explorar temas diferentes e que às vezes ficavam guardados no fundo da pasta de idéias da cabeça “, afirma ele.

A jornalista Manoela Maia trocou Maceió por Nova York e atualmente posta o NYC Week, e conta detalhes da imigração e da adaptação no novo país, além de histórias curiosas da cidade. “Estou muito feliz porque tenho recebido muitos elogios. Algumas pessoas estão me incentivando a escrever um livro”, conta ela.

Blogs e carreira
Muitos jornalistas afirmam que os blogs podem ajudar a se projetar na carreira. Leila Couceiro, que atualmente vive na Califórnia, e posta no Stuck in Sac, acredita que as empresas de comunicação estão atentas aos blogs e que a audiência deles pode atrair propostas de trabalho na mídia.

“Eles percebem que o autor tem possibilidade de atrair audiência para o seu veículo. Além disso, pessoas que não estão empregadas em nenhum veículo de destaque, e conseguem fazer um nome na blogosfera, muitas vezes acabam ganhando convites para trabalhos freelance ou mesmo empregos tradicionais na mídia”, afirma Leila.

Elói Silveira também vê os blogs como uma boa opção para encontrar novas oportunidades na carreira. “É, sem dúvida, um dos melhores cartões de visita que você pode ter”.

O estímulo
Amante afirma que começou a escrever para relatar suas experiências na China e na Mongólia. Para ele, o blog possibilita a publicação de material que não foi veiculado nos veículos tradicionais, além de contado com o público. “O blog é uma ferramenta que coloca o jornalista mais perto do leitor, é onde ele tem um retorno mais efetivo e imediato sobre o que publicou. Também serve pra mostrar que o nosso trabalho é maior que aquilo que aparece na mídia”, afirma.

“No meu caso específico, o blog serve muito para que eu mantenha ‘contato’ com a escrita. Como moro na França e estudo a nova língua desde que cheguei, é natural que deixe de lado um pouco o português para me dedicar ao francês, então o blog acaba sendo uma forma de exercitar meu texto”, afirma Elói Silveira.

Já Leila começou a escrever em blogs em 2004, por conta da mobilização gerada pelos blogs de política americanos, cobrindo a disputa entre Kerry e Bush. “O fenômeno que ocorreu, a partir de 2004, é que milhões de pessoas passaram a usar os blogs como fonte diária de informação, leitura, debate, expressão. O blog deu mais poder ao cidadão comum, jornalista ou não, de influenciar a opinião pública”, conta ela.

Manoela criou seu blog de uma forma bem espontânea, para informar a família e os amigos das novidades. “Criei o blog porque sentia a necessidade de compartilhar as experiências vividas aqui em Nova York. No início mandava e-mails enormes para minha família como forma de diminuir as saudades e também para contar as novidades. Então os textos foram ficando interessantes e eu resolvi criar o blog”, conta ela.

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Mise à jour

Abril 10, 2008 at 5:29 pm (Brasil - França) (, , , , , , , , )

Alguns dos posts que escrevi no passado já merecem atualização. É o caso daquele sobre o show do Radiohead, que está esgostado há meses. Conversando com o Daniel ”Chéri à Paris”, descobri que vou tentar a tática dele e de um amigo de entrar em shows que já têm ingressos esgotados. É o básico de comprar com cambista, mas se aproveitando do desespero dos caras em ficar com um ingresso caro na mão. Ele fez isso no Gilberto Gil da última semana e deu bem certo.

Naquele outro sobre as gafes, um amigo me disse que passou uma incrível vergonha ao entrar numa loja especializada em cinema e pedir um pôster do filme “La Honte” (A vergonha), enquanto ele queria mesmo dizer “La Haine” (O ódio). O vendedor ainda tentou consertar, fez cara de dúvida e perguntou gentilmente se não era a segunda opção. “Quel honte !”, como eles dizem aqui.

Já para lista das coisas que não vivo mais sem, incluo a biblioteca pública. Como é bom ter uma dessas perto de casa e ir lá ler ou alugar livros, quadrinhos e até cds e dvds. Na última vez, fiz a rapa e peguei dois filmes “Intervention Divine” e “Meu nome é Tsostie”, além de cds do Gil, Siba e a Fuloresta e Toquinho.

Outra é mais obre a série polêmica de comentários de um post do Paris Saint Germain. Falaram mal do meu São Paulo e o time está melhorando, mesmo que ainda sem brilho. Podemos até levar outra piaba do Palmeiras, mas pelo menos chegamos à semifinal do Paulixão.

Por fim, o do cotidiano non sense mal entrou e já merece atualização. É que o tempo anda non sense aqui. Semana passada quis melhorar, fez dois dias de sol, quinta e sexta, 16 graus, mas no final de semana caiu a temperatura e choveu. No domingo, piorou e chegou ao cúmulo de nevar. Por isso, repito : haja saco pra aguentar o clima aqui.

Neve no telhado da frente

Mais neve nos carros

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Cotidiano non sense

Abril 9, 2008 at 10:53 pm (Brasil - França) (, , , , , , )

- Estava voltando de bicicleta para casa, lentamente porque conversava com um amigo, quando avisto não tão longe um grupo de manos ao redor de um banco. E percebo que um deles vem em minha direção, me encarando, situação que eu já considero bastante estranha e um tanto perigosa. Afinal, estou de bicicleta e eles são uns 8. O mano então pede para que eu pare, eu finjo que não escuto e ele finalmente me segura e interrompe minha passagem. E eu penso : “F… !”

Mas nos dois segundos que se seguiram – e que foram suficientes para lembrar de dois roubos de bicicleta em São Paulo - tudo mudou. O mano me pergunta com um grande sotaque típico de mano: “Te dou 100 conto se você arrebentar aquele cara”, apontando para outro mano, logo à sua frente, que sorria.

Ainda com a adrenalina em alta, mas já bem mais tranquilo, digo que “sem chance, mano”, enquanto o outro me propõe “mesmo 1.000″ . Eles riem, eu rio, meu amigo ri e todos continuam o que faziam antes da intervenção. Conclusão: mano de primeiro mundo é outra coisa.

- Hoje, saindo da biblioteca, vejo uma família simpática falando com seus filhinhos e os amiguinhos deles. O Jean Pierre, um gordinho com seus 10 anos, queria ir para a casa dos amiguinhos, mas o problema é que ele já tinha almoçado e os amiguinhos não.

Então o pai, obviamente, disse que o Jean Pierre poderia esperar e ir mais à tarde. E o Jean Pierre fala: “Mas eu podia realmoçar com eles”. Conclusão: Gordinho é gordinho em qualquer lugar do mundo e inventa até palavras para comer mais.

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O horário de inverno

Abril 3, 2008 at 9:38 pm (Brasil - França) (, , , , , , , )

Entramos no horário de verão no último sábado, mas aqui o termo serve mesmo para indicar que as luzes das ruas serão acesas mais tarde, lá por volta das 20h30. Porque de verão, esse horário não tem nada. Conversando com amigos brasileiros igualmente decepcionados com o clima aqui, chegamos à conclusão que faz frio e tempo ruim há 6 meses, desde meados de outubro. Duro de aguentar.

Para mim, a situação tem um agravante. Nesta semana tenho que entregar mais um texto para a Próxima Viagem, com rolês de bike pela cidade, e desta vez eles precisam de fotos. Já não sou profissional e o material que tenho não é assim uma Brastemp, e para piorar só nesta quinta o sol resolveu aparecer depois de muita garoa, nuvens e céu cinza. O jeito, então, foi correr pra tentar tirar o máximo de fotos possível, mas é complicado.

Pelo que vi na previsão, a trégua de hoje é passageira e dura só até amanhã. No final de semana e na semana que vem deve voltar a chover. Não dá pra acreditar, o sentimento é de derrota em final de Copa do Mundo. Meu Deus, mande sol pra gente aqui!

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Futebol decadente e orgulho ferido

Março 13, 2008 at 2:59 pm (Brasil - França, Esportes) (, , , , , , , , )

Vi dois jogos de futebol nesta quarta-feira, ambos lamentáveis. Mas vamos nos ater principalmente ao primeiro deles, o da volta das oitavas-de-final da Copa da Uefa: Olympique de Marselha x Zénith. Lembro bem que a imprensa francesa foi ao delírio na partida de ida, vitória dos donos da casa, 3 a 1, com show de bola do quarteto Nyang-Cissé-Valbuena-Nasri. Só lamentaram um golzinho no final dos russos, nada que estragasse a festa e a boa série dos sulistas.

Ontem, entraram recuados e tomaram pressão do início ao fim. Era para ser uns 4 a 0, mas foi apenas 2 a 0, o suficiente para que o poderoso Zénith passasse às quartas e eliminasse o time de maior torcida da França. Que beleza!! E engraçado é ouvir e ler os jornais de hoje. A imprensa aqui é ainda mais coruja que no Brasil, fato até explicável: futebol também é paixão nacional, bons jogadores aparecem constantemente, mas a má fase é proporcional. E entra em jogo um outro problema: o orgulho francês.

Como é que uma nação poderosa, rica, com ilustres pensadores, centro do mundo (pelo menos para eles mesmo) não consegue ter times fortes como os da Inglaterra (malditos inlgeses!!), da Espanha, da Itália…e agora até da Rússia? Como é que os clubes daqui não têm dinheiro para nada e perdem seus maiores craques para Chelsea, Manchester, Real Madri, Bayern, Juventus, Milan, Barcelona, etc, etc ? Complicado. E solução a curto prazo parece não existir.

Vamos ter que continuar acompanhando e vibrando com um 0 a 0 entre Sochaux e Valenciennes (??), uma vitória emocionante por 1 a 0 do Rennes contra o Lille e o jogo mais empolgante em anos, o 3 a 2 do Le Mans contra o Toulouse, com golaço no último minuto de uns dos craques do campeonato, o brasileiro De Melo (???). Meu jesus!

 O outro jogo desta quarta….melhor nem se estender. São Paulo 2 a 1 no Barueri. Fui dormir tarde de novo, irritado e cada vez mais consciente de que esse ano já está perdido. Tanto aqui como no Brasil.

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Necessidades primárias

Março 11, 2008 at 1:07 am (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , , , , )

Curiosamente, foi a Manue que voltou a citar meu aniversário de um ano aqui em Paris. Ontem, quando falei que nem havia me dado conta do fato, ela me exigiu uma lista curta e sem muita enrolação das coisas que eu não conseguiria mais viver sem. Então, sem enrolação, reproduzo-a:

1 – O metrô parisiense (acho que nem preciso explicar o porquê, certo?)
2 – Bicicleta. E aqui, adoraria ter escrito Velib, mas como vocês sabem, acabei de comprar uma novinha e ando todo pimpão. O fato de Paris ser plana, pequena, ter bastante ciclovias e ser linda me deu uma motivação incrível e fez com que eu conseguisse esquecer daquele tal de carro, tão fundamental no Brasil.
3 – A maneira de comer. Claro que eu ainda choro quando vejo feijão, mas nunca pensei que fosse mudar tanto meu jeito de comer. E também de montar o prato, a mesa, o vinho, de exigir um pedaço de pão…hmmm, deu fome.
4 – Falando nele, o pão. Não dá, pão francês é só na França. Aqui, aliás, até português come baguete e não ousa abrir padaria.
5 – Queijo de cabra. A Manue tem ciúme de queijo de cabra desde o tempo em que eu disse que a verdadeira razão de eu estar aqui não era ela, e sim esta maravilhosa iguaria.
6 – Futebol brasileiro. Eu estou tentando ver os jogos aqui, mas com exceção do Lyon, o resto é sofrível. Foram mais quatro 0 x 0 na última rodada e o PSG que tá seguindo os mesmos passos do Curíntia. E antes de mais nada, outro viva aos criadores do SopCast e da AJTV.

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São as águas de março, fechando o inverno…

Março 10, 2008 at 6:02 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , , )

Cheguei a uma constatação interessante hoje: independentemente de ser inverno ou verão no mundo, março é mês de chuva. No Brasil teve até música pra isso, afinal, a gente samba e toma uma gelada pra celebrar ou afogar mágoas. Aqui na França, as pessoas apenas sabem desta condição de março e se deprimem calados. E eu me integro nesta lista.

E ainda olho os sites e vejo que a parte norte da França está em estado de atenção por causa das tempestades que vêm da Inglaterra (malditos ingleses). Chuva forte e ventos de 140 km/h que assustam. No meu caso, só me deixou ainda mais frustrado, para não dizer outra coisa.

Ontem, pela segunda vez na semana, resolvi sair de bicicleta num dos poucos momentos em que o mau tempo deu trégua. Resultado: cinco minutos depois de sair com céu azul e escalar o morro de Montmartre, veio um pé d’água que me fez dar meia-volta e descer voando, quase sem conseguir frear. E mais uma vez cheguei molhado e de mau-humor triplicado. Haja paciência pra tanto tempo ruim.

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Presente de primeiro ano

Março 8, 2008 at 11:42 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , , )

Talvez em outras épocas fosse motivo para comemorar em grande estilo, mas acabei simplesmente esquecendo que completei um ano aqui na França nesta semana. E só fui lembrado pelo post do Daniel, o Chéri à Paris, que curiosamente aterrissou por aqui três dias depois de mim.

E se ele fez uma bela duma retrospectiva em números, eu fico pensando aqui sozinho porque é que esqueci da data. Será que pela semana atribulada que passou? Ou talvez pelo fato de eu me sentir realmente em casa por aqui…Mas quem sabe mesmo porque havia acabado de celebrar o “nada” com a Manue e a levado num restaurante chique do lado da Torre Eiffel.

Enfim, o fato é que passou e agora não vou ficar lembrando de cada dia maravilhoso ou de sol. Muitas das coisas estão pingadas por aí no site e amanhã posto outro bom momento. E mesmo sem festa, ganhei um baita de um presente de mim mesmo: uma passagem para o Brasil. Mais do que certo, eu e a Manue desembarcaremos em São Paulo no dia 29 de junho, para ver se ainda encontro tempo de comemorar o meu aniversário de dois dias atrás (indireta aos amigos). E ficamos 1 mês e meio, sendo que por duas semanas encararemos outra empreitada pelo nosso paízão lindo, certamente à procura do verão fora de época do Nordeste.

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Histórias mínimas

Fevereiro 29, 2008 at 1:16 am (Brasil - França) (, , , , , , )

Pedro resolveu morar em Londres e mal falava inglês. Aprendeu na marra, trabalhou como garçom de restaurante sujo, de prédio chique, aguentou muita encheção de saco, mas com as boas gorjetas viajou de navio e ajudou a família. Hoje, quer voltar, não aguenta o clima úmido e as noites às 15h30 da capital britânica.

Elena é européia, bem européia, passou um tempo numa boa escola nos EUA, aprendeu espanhol e italiano com extrema facilidade. Faltava um desafio: com um dinheiro juntado sem grandes esforços, viajou então ao Brasil, passou um mês perdida pelas ruas, mas aprendeu português e se encantou. Mas se desencantou mais tarde por esses desencontros da vida e dificilmente fará outra aventura dessas.

Carlota, parisiense convicta, está em dúvida, mas ela não estava pouco tempo atrás. Culpa do seu namorado, que a deixou sozinha e voltou para casa. O João, brasileiro típico, tentou, tentou, mas ele também se desencantou por aqui, com o clima (que parece o da capital britânica), com a falta de calor humano. A Carlota agora está pensando no que fazer porque se sente sozinha, mas não sabe se tem o mesmo ímpeto da Elena para largar tudo e viver este amor, que cresce pela saudade, mas que talvez nem seja tão grande assim.

Leco é um cara inteligente e que nem era tanto assim na época da escola. Mas virou um intelectual, discute política em inglês, espanhol, francês e, claro, português. Está bem, feliz ao lado da sua alma gêmea e, ao contrário do João, só volta ao Brasil para a festa do casamento (e para curtir um solzinho).

Audrey, francesa mas não de Paris, também arriscou, foi para o Brasil e conheceu seu grande amor, o Paulo. Hoje eles estão juntos na França, bem, mas discutem frequentemente se vale a pena ficar ou voltar. Ela quer ficar, tem a familia por aqui, mas de algum jeito adoraria poder conversar mais em português no dia a dia – culpa do Paulo que passou a falar francês – e dançar, dançar, dançar.

Cleber vem pra França a cada duas semanas. Vem para comprar produtos e revender no Brasil. E ganha dinheiro assim. Ele é amigo do Dacio, que trabalhou no metrô, nos esgotos e comeu o pão que o diabo amassou antes de se dar bem. Os dois se encontram sempre por aqui, enchem a cara e soltam boas risadas.

O Fernando, o Joca, a Claudia, a Joana, a Ana Paula, o Vladimir estão de malas pronta para a Europa, para Londres ou Paris, acham que é lá que está a vida boa, porque no Brasil não dá mais. A Sophie, o Mathieu, o Christian, a Oxana e o Antoine estão loucos para ir para o Brasil. Na Europa eles têm tudo, mas a vida ainda assim não é fácil. Falta tempero. E disseram para eles que no Brasil isso é o que mais tem.

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Le truc

Fevereiro 27, 2008 at 11:49 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , , , )

Em uma semana completarei um ano aqui em Paris e posso dizer que sigo cada vez mais tranquilo na língua. Afinal, troquei de vez o inglês pelo francês com a Manue em setembro do ano passado e o progresso foi visível. Obviamente que nada é tão perfeito assim e de vez em quando solto pérolas ou engasgo em simples descrições ao me deparar com palavras bizarras para alguém que não cresceu na França (ou você acha que te ensinam nas escolas como dizer pia, panela de pressão, ralador, tomada…e por aí vai).

Mas tal como no Brasil, aqui na França existe um termo que quer dizer tudo (e às vezes nada): truc, que é nada mais, nada menos que treco, coisa. E isso é de uma valia enorme para o dia a dia, acreditem em mim. Foi assim que hoje consegui encher o pneu da minha nova bicicleta.

Ao perceber que ele estava meio murcho, fui a uma bicicletaria e, ao entrar, no meu já bom nível, soltei com toda a pompa: “Bonjour, vous avez le truc-là pour gonfler le pneu?” (Bom dia, você tem aquele treco para encher o pneu?) Reparem que “le truc-là” é um linguajar chulo, de malandro, embora o “vous” tenha caráter de educação ao falar com alguém que você não conhece.

O homem obviamente estranhou e me respondeu com cara feia: “Le truc?“. Envergonhado, voltei ao meu mundo de estrangeiro e admiti sem problemas: “Desculpa, eu não sou francês. Não sei como se fala ‘le truc pour gonfler le pneu‘”. No final, tudo deu certo, falei que era brasileiro, ele ainda brincou com nosso futebol e voltei para casa com pneu cheio. Ah, e “le truc-là” se chama pompe, como bomba.

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A felicidade está numa panela de feijão

Fevereiro 23, 2008 at 2:19 pm (Brasil - França, Casa e Familia) (, , , )

Pois é, a Manue conseguiu. Tornou-se brasileira de vez. Fez uma deliciosa feijoada. E me fez quase ir às lágrimas. É sim meu prato favorito. Comemos ao som de Chico e Feijoada Completa.

Panelão

O anjo e sua feijoada

O sortudo do Bruno que comeu de graça

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Furo furado

Fevereiro 15, 2008 at 12:02 am (Brasil - França, Esportes) (, , , , , , )

Enquanto escrevo aqui, provavelmente outros jornalistas que passaram frio e ficaram o dia todo no hospital La Pitié Salpetrière estão enviando suas matérias assinadas para jornais, rádios ou televisões importantes do mundo todo. Do Brasil dá para dizer quem estava lá: Globo (óbvio), ESPN Brasil, Folha, Estado, O Dia, RFI e talvez algum outro que tenha esquecido. Já eu, faço um artigo exclusivo para o meu blog, furo de reportagem especialmente para vocês, meus queridos leitores.

Como todos sabem, o Ronaldo esteve hoje em Paris para fazer mais uma cirurgia no joelho, desta vez no esquerdo, mas de mesma intensidade que a de 2000. Ruptura total do tendão patelar, coisa para nove meses no mínimo de recuperação. E detalhe, como bem o médico Gerard Saillant lembrou: “Ele tem agora 31 anos e com 31 anos você está mais perto do fim da carreira do que você estava com 20. Claro que ele não está velho, mas a recuperação é diferente”.

As semelhanças das lesões são curiosas: a primeira veio 6 minutos após ele entrar no jogo. Naquela ocasião, ele voltava aos gramados depois de parar por quase 4 meses, também com problema no joelho direito. Agora, sofreu a lesão 2 minutos depois de entrar em campo, no outro joelho, um fato incomum, segundo o mesmo médico. “É raro, mas ele já vinha com dores nos dois joelhos há muito tempo”, observou Gaillant.

Lamento pelo Ronaldo e também por eu não ter conseguido vender essa matéria. Mas paciência, vi colegas de profissão, fiz minha parte sem ser remunerado e quem sabe tiro lições e aprendo a lidar melhor com outras situações dessas. Lembrando que o Guga vai estar aqui para o fim da carreira oficial e se alguém quiser me contratar, manda um email…

E para quem viu o Jornal Nacional ou o da Globo, estava do lado da Sonia Bridi. E para quem viu ESPN Brasil, saibam que o cara que estava segurando o microfone era eu, enquanto o reporter/câmeraman João ficou de me pagar uma cerveja. Amanhã estarei lá no hospital de novo, brincando de jornalismo sério e ajudando agora o meu velho parceiro Julio Gomes, da Band.

Abaixo a transcrição da entrevista dos médicos e do Leonardo, do Milan. Se por acaso alguém pegar esse texto e usar, favor dar o crédito e, se quiser, depositar uma quantia na conta…

Gerard Saillant - (Foi) Exatamente a mesma lesão de oito anos atrás. Passou tudo bem, sem problemas. Ele vai continuar hospitalizado de oito a dez dias e a reeducação vai começar já amanhã cedo. Para qualquer questão que vocês colocarão, se ele vai voltar a jogar, se ele vai recuperar o nível de antes, a mesma resposta: se a gente diz que ele pode parar é por que ele pode parar, se a gente diz que ele vai voltar é por que ele pode voltar, vai depender dele, da reeducação, de seu plano de carreira. Mas neste tipo de lesão, o tempo de recuperação é de no mínimo 9 meses antes de querer tentar voltar a um bom nível.

A operação foi boa, mas a gente vai saber mais quando ele retomar as atividades. Mas tecnicamente foi tudo normal e dentro de boas condições.

(Sobre o tipo da lesão) É bem raro de dois lados, mas é bom observar que ele já vinha com dores nos dois joelhos há muito tempo e mesmo assim ele fez uma grande carreira. Mas acontece.

É exatamente a mesma cirurgia de oito anos atrás, então tenho as mesmas imagens na minha cabeça.

(Ao ser informado que o contrato do Ronaldo se encerraria em julho, se ele poderia jogar no Milan) Não, até julho é impossível. A recuperação é de nove meses, antes é impossível ele jogar. É só fazer as contas.

Eric Roland - Ele estava confiante, a mesma condição que antes, mesmos enfermeiros, mesmo cirurgião. A operação foi uma reinserção de um tendão que foi arrancado da rótula, que foi reinserido e protegido para permitir uma reeducação rápida. Intervenção que vem sendo feita com sucesso há muito tempo aqui no hospital por nossa equipe.

(Sobre a diferença de idade da primeira cirurgia) Faz diferença sim. Sobretudo na motivcação, se ele quer mesmo voltar ao nível de antes. Isso a gente vai ver depois.
Saillant - Mas aos 31 anos você está muito mais perto do fim da carreira que quando você tem 20 anos. Claro que a gente não está velho aos 30 anos, ele está em grande forma.

Roland - Ele começa a reeducação amanhã e a gente dará 2, 3 dias para controlar a dor, a temperatura, e aí sim autorizá-lo a andar com o andador.

Não falamos com ele direito ainda porque ele estava sob efeitos dos sedativos, um quadro normal de quem acaba de passar por uma operação. A partir de amanhã é que a gente vai poder ver algo.
Detalhe : ele usou anestesia geral.

Leonardo – O Milan vai estar perto dele, isso foi falado pelo Berlusconi, Galliani, é o estilo do Milan. Não dá para falar muito ainda, vamos passar oito a dez dias aqui e depois veremos. A recuperação começa amanhã, com pequeno movimento, inicio de tudo.
Ele está passando por uma coisa que ele conhece, sabe a dimensão. Não é questão de dizer se ele esta motivado ou não. Ele tinha que passar por essa operação, era o que ele tinha de viver. O Ronaldo tem força psicológica e mental e graças a Deus deu tudo certo. Vamos ver o que vai acontecer.

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