Two days in Paris e as gafes
Esses dias vimos o filme aí do título do post, uma história água-com-açúcar da Julie Delpy sobre um casal de namorados, ela francesa e ele americano, que passam por Paris antes de voltar a Nova York. Nem entrarei em méritos sobre a qualidade do filme, porque nem vale tanto a pena. A moça quis fazer uma mistura de Amélie Poulin com Antes do Pôr-do-Sol mas errou a mão e exagerou absurdamente nos clichês sobre os parisienses. Dá realmente a impressão de que ela não gosta do país-natal.
Mas o que quero ressaltar são algumas situações que o cara passa e compará-las, porque acabei vivendo algo parecido no início, quando ainda não falava nada de francês. Uma delas por exemplo, é clássica: a apresentação aos pais e o primeiro almoço de família. E não sei todos sabem, mas aqui almoço é coisa séria, demora 2h, tem entrada, primeiro vinho, prato, segundo vinho, pão, queijo, sobremesa…Enquanto isso, o papo vai rolando na mesa (felizmente os pais da Manue são bem mais normais que os da moça do filme). Naquela ocasião, em dezembro de 2006, eu suava e minha cabeça doía porque mal compreendia o que eles falavam e as perguntas continuavam. Um sofrimento.
E nem podia ser diferente: eu era a “atração”, o namorado brasileiro num vilarejo de 350 habitantes. O problema é que fazia 2 meses que havia começado o curso básico de francês. Numa dessas perguntas veio uma das gafes que eu nunca esqueço. Ao ser questionado se no Brasil havia coelho, ou LAPIN, eu pensei, pensei, olhei feliz feliz pra Manue e disse: “Ah, pão (pain, som parecido). Claro que a gente tem. Fala pra ele, Manue. Explica que você comeu pão lá”.
Em seguida vieram as risadas e o comentário como se eu fosse um bebê: “Ai que bonitinho, ele achou que ‘lapin’ fosse ‘le pain‘” e mais risadas. Hmmmm…primeiro encontro e uma vergonha enorme, mas tudo bem, melhorei depois. Melhorei e ganhei tanta confiança que no final do ano passado já sentava na poltrona da sala com o sogrão pra assistir rúgbi ou jogo de futebol. E, confiante, saía discutindo sobre contratações, atuações e lances polêmicos.
No entanto, era começar a explicação e eu parava: “Sem dúvida que…(foi falta pra cartão…cacete, como eu digo isso?!)”…e ficava queito, ou apenas gesticulava. “Sim, o Juninho…(bate bem na bola e todas as faltas pro Lyon na entrada da área são perigosas)”…Ou então: “O goleiro do meu time é o…(que mais marca gols de falta e pênaltis no mundo, mas obviamente que aqui na Europa ninguém conhece o Rogério)”…e no final, virava a cabeça e tentava apenas aprender os termos escanteio, falta perigosa, defesa, lateral-direito, impedimento, “é teste para cardíaco, amiiiiigo” e por aí vai.
Mas segui melhorando e também evoluí nas gafes. Outro dia, assistindo a outro jogo, entendi algo bizarro e olhei pra Manue, que seguia impassível. “Manue, ele disse Faux Fillet (algo em torno de fofilê, que nada mais é que um bife como Entrecôte, Fillet Mignon)?” E ela respondeu sim. “Mas faux fillet não é uma carne?” E ela, em meio a risos: “Sim, mas nesse caso não é faux fillet, mas faufiler (fofilê), que é se esquivar, passar pelo meio de duas pessoas“…e mais risos. Não, não é fácil.
PS: nem sei se o meu blog é tão lido por quem está aqui na França, mas se alguém se interessar em mandar algum outro “causo”, publico mais tarde. Enviem aqui: eloisilveira@hotmail.com
Gera disse,
Março 19, 2008 às 1:20 pm
Vimos o filme sábado aqui. Gostamos e rimos muito. Realmente lembra os filmes dela com o Ethan Hawke e um pouco de Woody Allen, mas não achei nada de Amélie Poulin. E também não acho que ela não gosta da França, não me passou essa impressão. Obviamente, há exageros, mas acho que equilibra virtudes e defeitos de americanos e franceses.
Martim S Silveira disse,
Março 20, 2008 às 3:10 pm
Bom, correndo o risco de arranjar briga em casa e mantendo minha fama de “não, não gostei” (rs…), achei o trailler desse filme uma droga e me desanimei completamente de ver. Pareceu mesmo um monte de clichês-facinhos-pra-lucrar-com-o-mercado-americano. Enfim… Mas o post nem é sobre isso. Conta aí mais dessas vergonhas, que o causo é bem engraçado!
Eloi disse,
Março 20, 2008 às 4:33 pm
Citar o Two Days in Paris foi só pra abrir o tema mesmo. Eu concordo com vc, mesmo que vc não tenha visto o filme, que os clichês são pesados. Mas é aquele filme que você dá umas risadinhas, curte um pouquinho e nem sai tão puto. Não é esse o caso. Mas como o doutor Gera diz também, eles dão umas cutucadas nos americanos. Por fim, a Manue, que é francesa, achou ofensivo e se indignou com o tanto que a Julie Delpy força a barra. Daí dá pra ter uma idéia melhor. Abs
Cida disse,
Março 20, 2008 às 6:38 pm
Pra complear a família, não vi com os olhos dos franceses o filme. E gostei, embora também ache que a Julie Delpy tenha forçado a barra. Mas, para os dois lados. O americano me parece um trouxa que não sabe terminar uma frase em inglês, de tão fraco das idéias. E a personagem da própria Julie parece liberal demais. Não se parece com uma francesa exatamente. Mesmo assim, “desgostos” à parte, eu gostei do filme.
Cida disse,
Março 20, 2008 às 6:44 pm
Esqueci de dizer uma coisa: durante o filme, vi o Elói encurralado diversas vezes em conversas com os amigos e a família da Manue. Apesar de saber um pouquinho mais do que o imbecil do personagem. A propósito, achei muito bom o artista que faz o tal americano.
Mis à jour « Paris na linha disse,
Abril 10, 2008 às 5:30 pm
[...] caro na mão. Ele fez isso no Gilberto Gil da última semana e deu bem certo.Naquele outro sobre as gafes, um amigo me disse que passou uma incrível vergonha ao entrar numa loja especializada em cinema e [...]
Julia Fontelles disse,
Maio 19, 2008 às 8:30 pm
Não ví o filme ainda mas tenho uma historinha de gafe para contar: Quando ainda não sabia nada de francês (hoje estou terminando o segundo ano de curso) estava eu na companhia de amigos em Paris e todos procurávamos um bom restaurante especializado em fondue, pois estava bem fria a noite. Foi quando lí numa placa “Fondée en 1860″ que estava pendurada numa loja. E em seguida disparei:
-Alí, aquela casa tem, tá escrito na placa!
As risadas foram gerais, pois para quem não fala o idioma, fondée quer dizer fundada e não fondue como pensei.
Marisa Muros disse,
Junho 7, 2008 às 4:05 pm
Pôxa, eu não falo francês, mas pecebi o significado…