Ainda não é o artigo completo, mas vou falar melhor de dois restaurantes que citei rapidamente na matéria da Próxima Viagem e que “testei” com a Manue. Duas excelentes opções, uma para o almoço, outra para o jantar, uma bem simples, outra um pouco mais requintada (mas não necessariamente cara). Tratam-se do Le Baratin e do Au Bon Accueil.
Seguindo o sentido lógico, começo pelo primeiro. Vi inicialmente o Le Baratin folheando o Guia Lebey de Bistrôs Parisienses, que havia acabado de alugar na biblioteca. Buscava os bistrôs 3 caçarolas (e não estrelas como o Michelin) a bom preço e o encontrei isoladão no 20° arrondissement, um quartier distante e sem o mesmo charme dos do centro. Mas as críticas eram excelentes (”talvez o melhor bistrô de Paris“, dizia o Lebey) e resolvi ir atrás de mais informações.
Descobri comentários positivos do Saul Galvão, jornalista do Estado de S. Paulo, que morreu de amores pela casa. Depois, li em matéria do Le Figaro que o Le Baratin merecia ao menos uma estrela no Michelin, mas que era esquecido exatamente por estar fora do “miolo” de Paris. Questão de marketing. Fui, então, checar.
Realmente, ele está longe do charme, mas a proximidade a Belleville o torna interessante. Vale como dica um passeio pelo parque ao final da rua Jouye-Rouve e outro pelas ruas em sobe-e-desce do bairro. E como é um estabelecimento simples, você ao menos sabe que está comendo em lugar típico, com clientela assídua e que lê tranquilamente o jornal no balcão ou entra sem cerimônias na cozinha para dar um “oi” ao chef.
Vi a cena, aliás, porque sentamos de frente para a cozinha, que passou a tarde com a porta aberta. No almoço, um menu entrada + prato + sobremesa saiu por 15 euros, difícil de encontrar mais barato. Para acompanhar, um copo de ótimo vinho, recomendado pela dona argentina. Comemos um delicioso peixe com salada e molho de limão e ervas de entrada, um fricassê de frango e de sobremesa um pudim de leite diferente, especialidade de casa. E saímos bem felizes com a relação custo-benefício.
Obviamente que não fomos na mesma noite conhecer o Au Bon Accueil, mas se um viajante com budget razoável quer ter a certeza de comer bem nas duas refeições, a indicação é correr para o 7° arrondissement lá pelas 20h, 20h30. O restaurante fica na rua Montessuy, uma das que dão de cara para a Torre Eiffel. E a chegada no restaurante já é com sorriso no rosto, mas uma dúvida: ficamos lá fora vendo a vista, ou entramos para comer?
Desta vez, preferimos comer. Neste outro bistrô 3 caçarolas no Lebey, o estilo muda completamente. A clientela também: não existe balcão e provavelmente o segurança seria chamado caso você fosse dar um “alô” ao chef. Assim, como as mesdames e messsieurs do chique bairro, aceite as honras do metre e deixe suas jaquetas na entrada com ele, sem cerimônias.
Apesar da pompa aparente, a decoração é sóbria e aconchegante. Como estamos no jantar (o que em muitos casos significa triplo do preço do almoço), o mesmo menu completo sai por 31 euros, nada tão absurdo devido à localização, à qualidade da comida e à boa apresentação das mesas. E também por se tratar de um “restaurante gastronômico”, o garçom fica ao seu lado em caso de dúvida no menu.
Após dar uma olhada nas entradas e não entender muito, peço ajuda e decido pela friture d’éperlans en escabeche et salade de légumes, ou uma porção de peixinhos fritos. Como prato principal, um bom pedaço de carne: pavé de rumsteack Charolais, ragoût de lentilles vertes du Puy et légumes. Já a Manue vai com a combinação Caille de Dombes farcie aux petits légumes et vinagrette au jus de viande, seguido por Fillet de daurade grise à l’huille d’olive et radis noir confit (?!)
Como perderia linhas para explicar a composição dos pratos, resumo em duas palavras: bom demais! Vem a hora da sobremesa e opto pelo Tiramisu, enquanto ela vai de Ananas rôti et pain d’épice aux pommes, sauce caramel. Ufa! O meu é delicioso e tão surpreendentemente grande que até o garçom chega a mim e diz: “Eu adoro, mas acho um pouco pesado, não?” Verdade, mas raspo a tigela sem o menor problema.
Foram sem dúvida dois dos melhores restaurantes nos quais estivemos (e, para não ser injusto, cito o Le Queniau e o Le Salon, que certamente falarei mais tarde). E claro que optei por lugares mais em conta, afinal (ainda) não tenho intenção de torrar 150, 200 euros num jantar apenas por causa das estrelas do Michelin. Vale bem a idéia do Saul Galvão de se concentrar no Guia Lebey de Bistrôs Parisienses. Bem mais pés-no-chão.