O Restaurante Chartier
Fevereiro 3, 2008 at 9:07 pm (Dicas e Passeios) (barato, Bexiga, Paris, restaurante, tradicional)
Depois do passeio a Versailles, o último sábado foi encerrado com a ida ao Restaurante Chartier, um dos mais tradicionais de Paris e aberto desde 1896. Curioso é que toda essa longevidade não significa abuso de preços, pelo contrário. O Chartier é, por tradição, um restaurante barato, que serviu operários e mantém até hoje um estilo cantina, enorme, com mil garçons que trombam e servem 10 pratos ao mesmo tempo, como nas casas do Bexiga ou nos Demarchi de São Bernardo. Ou seja, tudo o que você nunca imaginou encontrar em Paris.
Como está nos principais guias de Paris, o Chartier é tomado por turistas, principalmente num sábado à noite, exatamente quando resolvemos ir. O resultado óbvio é uma fila enorme, uma espera considerável e um atendimento nas coxas. Mas vamos aos fatos por partes, como diria Jack.
Eu a Manue estávamos num bom dia, então esperamos pacientemente e até fomos recompensados: como éramos dois, furamos bem a fila, já que as mesas para casais vagavam mais rapidamente. E ao entrar a impressão é ótima: decoração em estilo antigo, cadeiras de boteco e toalhas de papel. O metre nos leva à nossa mesa e pedimos licença ao casal ao lado, que participaria de toda nossa conversa caso entendessem francês, porque não há qualquer divisão ou espaço entre nós.
Devidamente sentados, recebemos o menu, também em papel, impresso no dia mesmo. Escolhemos uns pratos até baratos, um pichet de vinho a 3 euros e vimos outro casal, desta vez italianos, sentarem ao nosso lado. O garçom chega, fazemos o pedido e ele anota tudo em caneta Bic na toalha ao meu lado. Eu estava para o Entrecote, mas optei na “Hora H” pelo Pavé de Rumsteack, sábia decisão que perceberia mais tarde.
Cronometrados 2 minutos após o pedido e os pratos chegam, juntos com os dos vizinhos. Acho estranho, mas aceito, o clima ainda é bom. Mas a carne vem grelhada por fora e fria por dentro e questiono se elas não estariam lá prontas antes mesmo do pedido, resposta que me parece um tanto óbvia. Sem me indignar, peço ao garçom para repassar a carne enquanto olho ao lado os Entrecotes dos vizinhos, também vermelhos, provavelmente frios, mas muito, muito mais engordurados e feios. A cara deles também não é nada boa.
Como bons “franceses”, abusamos, pedimos pão, água, recebo de volta minha carne em bem melhor estado e a Manue até que gosta do choucroute alsacien. Mas os vizinhos…eles seguem lutando com a carne, lamentando a má escolha e a falta de um tradutor para que eles possam xingar o último dos quatro donos que o Chartier teve em mais de 100 anos.
Os italianos terminam (ou desistem), pedem a conta e o garçom soma tudo na toalha, com a mesma Bic. Eles desembolsam 27 euros visivelmente contrariados e, antes de saírem, balbuciam algo em nossa direção e entendemos que eles queriam alguns pedaços de pão, que oferecemos sem hesitar. A Manue conclui: “Sorte dos donos que eles eram estrangeiros, porque se servissem isso pro meu pai, nossa… !”
Seguimos até o fim, nem tão satisfeitos, mas também não tão tristes como os vizinhos que partiram. Vale mais para observar aquele mundo de gente e pensar como os donos conseguem arrancar grana servindo algo meio tosco. E por fim, exatamente como no Nazista do couscous, acho que vale recomedar. Afinal, nada lá é como nos outros restaurantes de Paris, seja no preço, no estilo da decoração ou na qualidade da comida.
Reforçando a idéia, mais fotos do Chartier estão no fotolog (http://fotolog.terra.com.br/eloi_londres/)
Martim disse,
Fevereiro 4, 2008 às 1:16 am
Pô, você já tá francês. Já reclama da comida e abusa dos caras… Mas os italianos devem ter sofrido mesmo, pra mendigar pão! Deus me livre de ir num negócio desse… hahaha
Marta disse,
Fevereiro 7, 2008 às 11:10 am
Nossa, me lembrei do Demarchi com a sua história. Fomos lá há uns dois meses para o aniversário de uma amiga e achei a comida ruim e cara. E o pior daquilo tudo era o bailinho no meio da pista. Muito deprê, sorte que foi na faixa!
Beijos
A estrela cadente « Paris na linha disse,
Março 3, 2008 às 11:06 pm
[...] engraçado, mas eu mesmo pude provar isso naquele tal de Le Chartier, cujo post está mais abaixo. Ele vive lotado porque está nos guias e porque deve pagar bem. [...]