Brasil para estrangeiro ver

Janeiro 28, 2008 at 7:28 pm (Brasil - França, Política) (, , , , , )

Sinto informar, mas este post não é mais um da seção “Bom e Barato“. Na verdade, encaixa-se apenas no “Barato”, afinal neste final de semana fomos ver de graça um espetáculo que chegou bem cotado aqui em Paris, o Balé de Rua, com integrantes de um projeto social de Minas Gerais. Fui na esperança de encontrar algo semelhante ao Samwaad, que entre 2003 e 2005 lotou os teatros dos Sesc de São Paulo e tocou até para o Lula. Mas infelizmente a decepção foi enorme.

SamwaadAntes, para situar, falo mais do Samwaad, projeto que teve como idéia central mostrar a música brasileira e indiana ao mesmo tempo, conduzida pelo pianista Benjamin Taubkin, por um grupo de percussão nos moldes de uma escola de samba e por músicos indianos. A dança, com adolescentes oriundos de ONGs, uma delas a Gol de Letra, entrou mais tarde e deu corpo (literalmente), fazendo o que já era bom ficar completo.

No longo tempo em que permaneceu em cartaz, o Samwaad foi um sucesso, de levar os mais sensíveis às lágrimas, de fazer muita gente voltar. Deu tão certo que ele expandiu seus limites e veio para a Europa em 2005, passando alguns dias na França. Como na época eu morava na Inglaterra, vim a Paris por um final de semana e aproveitei para conferir e constatar que o show continuava de altíssimo nível. O único problema foi a sala de apresentações: pequena e afastada do centro, o que acabou deixando muita gente frustrada por não ter conseguido ingresso.

Tudo diferente do Balé de Rua, destaque atualmente no Trianon, grande e conhecido teatro em Pigalle, para “temporada” de quase um mês. Em cena, a principal mudança: ao invés da sutileza dos jovens dançarinos e da boa música, um espetáculo para estrangeiro ver, velho retrato estereotipado do Brasil, com trilha mal produzida e enorme falta de criatividade na representação do país. Aliás, os cerca de 20 dançarinos nem espetaculares eram e traziam uma característica que muito me incomodou: todos adultos, homens (apenas uma mulher no meio) e, claro, negros.

No primeiro ato, que até se salvou em relação ao resto, o grupo se apresenta vestido no estilo dos anos 40, com cartolas e sapatos brancos, mostrando alguns passos de samba e batucando pandeiros. A partir daí, show de obviedades e mau gosto. Na sequência, os dançarinos aparecem em shorts curtos e apertados (para não dizer cuecas) e se complicam ao tentar passos de dança clássica, incondizentes aos seus músculos. A cena beira o ridículo quando eles começam a soltar gritos (numa demonstração de poder do macho?) e a convidar o público a entrar na dança. E pior: o publico aceita com um sorriso de orelha a orelha.

Balé de RuaPouco a pouco perdi a paciência, fiquei extremamente chateado e só não saí após 10 minutos em respeito à minha namorada e porque incomodaria toda uma fila que mantinha os olhos fixos à frente. Entre outras coisas ruins que se seguiram, um funk cantado ao vivo e ressaltando a dureza da vida na favela, mais gritos estúpidos e inoportunos, a trilha que seguia com a variação de apenas uma música (e só podia ser Aquarela do Brasil), mais obviedades sobre nossas origens africanas e nada nem tão bonito visualmente, a não ser umas rosas gigantes fosforescentes e um canhão de luz.

Tudo para mostrar um Brasil escravo, negro, batalhador, de forma extremamente arrogante (”sim, somos fortes, temos ginga e cor e vocês são brancos, duros e infelizes”) e extremamente racista, que não contribui em nada para a divulgação da nossa cultura. Ao fim, fiquei sentado em protesto enquanto o público aplaudia de pé (!!!) e saí indignado, lamentando o fato de o Samwaad não ter tocado aqui por um mês e de não terem sido eles nossos verdadeiros representantes.

Triste também é saber que muita coisa boa do país não se fixa ou nem chega aqui justamente por causa de grupos oportunistas que continuam divulgando imagens como esta. A culpa, então, não é dos europeus, mas nossa mesmo.

3 Comentários

  1. Lello Lopes disse,

    Você foi a um espetáculo de balé e achou que ia ser legal??? Tsc, tsc, tsc…

  2. Martim S Silveira disse,

    É porque você não viu a apresentação do Laurent na noite “brasileira” do restaurante em que ele tocava em 97. O jantar custava 90 dólares por pessoa e começava bem, com uma bossa nova ao piano (tocada por ele). Mas depois de meia hora, todos da banda levantavam e começavam a circular pelas mesas com pandeiros e bumbos, enquanto as garçonetes – todas mulatas haitianas ou da África francesa – distribuíam maracas de plástico para os pessoal acompanhar.
    Logo depois, um sujeito vestido de pássaro sobrevoou o restaurante e desceu na pista de dança cuspindo fogo como um malabarista de farol. Em seguida, começaram a tocar lambada e pagode no mais alto volume, enquanto “professores” vestidos de malandros da Lapa chamavam os franceses para uma aula da mais típica dança nacional. Depois de algum tempo, assisti, de queixo caído, a umas francesas, que, na minha frente, imitavam a Carla Perez “segurando o tchan” (coreografia completa, juro!), enquanto tocava Paralamas do Sucesso…
    Eles adoram ser enganados, meu…

  3. Daniella disse,

    Como sempre brasileiros meitos a estrangeiros, puramente ignorantessss!!!
    Quando não gostamos de algo, não somos obrigados a ver ou ouvir, simplismente devemos ignorar, mas vc foi além, viu e ouvio o espetaculo com tanta atenção que sabe passo a passo, interessante não!!!
    Mas fazer o que, como dizemos no Brasil, fala mal, mas paga um pau!!! hehehehe

    Sucesso Cia de Dança Balé de Rua

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