Nazista do couscous

Janeiro 17, 2008 at 7:16 pm (Dicas e Passeios) (, , , , )

Antes de mais nada, duas rápidas considerações:
1- não, eu não errei a forma escrita do prato em questão. Aqui, couscous é assim mesmo, com dois “ous-ous”.
2 - tão diferente do nosso cuscuz em termos de gramática, o couscous marroquino não tem nada a ver com aquela torta de farinha de milho. Trata-se de uma refeição completa, com semoule - uma farinha, mas em grãos -, muito legume cozido e muita carne, variando entre carneiro, porco e frango.

Dito isso, passo à proposta do texto, que remete ao saudoso seriado norte-americano Seinfeld. Em um de seus melhores episódios (aliás, o quarto segundo eleição do “Bebê Diabo” Lello Lopes), os protagonistas encontram um restaurante tosco que vende a sopa mais deliciosa de toda Nova York. O problema é que o vendedor é um carrasco e exige respeito e regras durante a compra.

Assim, após enfrentar longa fila, é preciso ser rápido, praticamente jogar o dinheiro no balcão, falar sem gaguejos o sabor da sopa e passar rapidamente ao lado, sem mais perguntas. E aquele que ousa pedir pão recebe como resposta: “No soup for you!!!“, e o dinheiro de volta, sem dó.

Depois de enormes explicações, o fato é que encontrei o Soup Nazi francês. Descobri a pocilga que ele dirige e que nem nome tem em 2006, com meu primo Coaty. Fiquei encantado: quanta comida, quanto legume, quanta carne! Era um prato de caminhoneiro de luxo.

Em 2007 voltei aqui para morar e logo no primeiro dia com a Manue, passeando em Montmartre, lembrei daquela biboca e a convidei para comer. Sucesso! Ela comeu metade, mas adorou e ainda me achou super “cool” por conhecer a vida alternativa de Paris (mal sabia ela). E viramos cliente assíduos.

Com o passar do tempo, porém, começamos a perceber que o dono/garçom não era dos mais simpáticos. E a revelação veio num belo dia em que tivemos a idéia de pedir apenas um prato para dois, já que a Manue insistia em nunca terminar. Ao ouvir tal ousadia, o moço deu as primeiras mostras da alcunha que lhe viria a ser dada mais tarde.

Olhou feio, reclamou, disse que o prato já era barato e que não aceitaria. Insistimos também e falamos que pediríamos uma garrafa de vinho inteira, o que fez ele ceder e o que, depois, percebemos ter sido besteira em termos de preço. Ainda magoado, o nazista não se deu por vencido e nos trouxe um prato mixuruca, bem inferior ao normal. E no final ainda teve a cara de pau de perguntar se estava bom.

Ficamos bem p… e começamos a colocar em dúvida nossa volta. Mas não resistimos. Voltamos, duas, três vezes e recomendamos e levamos amigos, os pais da Manue também provaram, até que veio o dia em que a história mudou de vez. Na segunda passagem de uma amiga por aqui, ela mesmo sugeriu de retornar lá. E até reservamos, porque era verão e a biboca tem 6 mesas e está sempre lotada.

Chegamos no horário marcado e nada de mesa. Nós éramos três e ele nos ofereceu uma do lado da geladeira de vinhos, com dois lugares. Disse não e fomos convidados gentilmente a esperar. Havia mesas fora e sugerimos então sentar lá mesmo, o que ele não gostou nada. Se passasse a fiscalização, era multa na certa.

Ficamos bem uma hora até que ele, contrariado, aceitou a idéia. Pedimos e previmos novamente a tal “vingança”, mas vitória! Desta vez tudo certo, a delícia de sempre. O problema veio logo depois: mal terminávamos de raspar o prato (no meu caso, porque claro que a Manue deixou metade) e o nazista se aproximou com a conta e ficou resmungando do nosso lado. E como na época meu francês já estava afiado, entendi bem que ele falava da gente e chegou até pedir, nunca olhando no nosso olho, como todo nazista faz, que saíssemos rápido, porque ele estava correndo riscos de tomar multa.

Pagamos, disse um obrigado irônico e saímos pedindo desculpas à amiga. Foi a gota d’água. Decidimos nunca mais voltar e até achamos um ótimo japonês, não tão caro, que substituiu à altura. E passados cinco meses de jejum de comida marroquina, estávamos lá de novo, bem dizer à contra-gosto, após a estúpida idéia de mostrar a uns amigos um couscous maravilhoso e barato perto de casa.

Comemos e nos esbaldamos. Que saudade! Quase pedi desculpas ao nazista pela longa ausência. O Cabeção, meu amigo, passou mal por comer tão rápido e, mesmo tendo sido obrigado a visitar o banheiro da espelunca, coisa que eu nunca fiz, saiu rasgando elogios e falando que a passagem por Paris já estava ganha. E a gente nem tinha ido à Torre ainda.

Assim, fica a dica (ou não) para quem vier me visitar. O couscous é logo ao lado.

PS: aqui o link do post do Lello do Soup Nazi (http://bebediabo.zip.net/arch2008-01-01_2008-01-31.html#2008_01-08_00_55_57-3739347-0)

Noitada no Nazista do couscous com Christiano e Joyce

7 Comentários

  1. Butt disse,

    Janeiro 17, 2008 às 9:46 pm

    Mais uma vez, fantástico!

    Lembrança de um dos poucos pratos que não consegui comer inteiro! Se quiser ilustrar o post, tem uma foto nossa neste ilustre local no fotolog da viagem!

    Falando em fotos, vou te mandar as da “sushizada”! E ainda bem que tirei elas do celular a tempo, uma vez que ele foi roubado enquanto caminhava tranquilamente pela Av. Angélica!

    Abraço!

  2. Eloi disse,

    Janeiro 18, 2008 às 9:54 am

    Tá lá a foto! Qto ao celular, é por isso que sempre fiz questão de ter o pior modelo possível. Manda as fotos da sushisada que eu post aqui. Abraço!

  3. Lello Lopes disse,

    Janeiro 18, 2008 às 4:28 pm

    Grande Elói. Pior que eu fiquei com vontade de ir comer esse couscous. Da próxima vez que eu for para Paris, quero ir lá, com certeza (e só pra provocar vou com a minha camiseta do nazista da sopa - ahahahah).
    Ah, acho que o André deu uma sumida porque a namoradinha dele tá aqui em São Paulo. De qualquer forma, já deixei um recado de que você quer falar com ele. Eu devo encontrá-lo hoje, então reforçarei o recado.
    Um grande abraço pra você e pra Maneu. Au revoir!

  4. O Restaurante Chartier « Paris na linha disse,

    Fevereiro 3, 2008 às 9:09 pm

    [...] como os donos conseguem arrancar grana servindo algo meio tosco. E por fim, exatamente como no Nazista do couscous, acho que vale recomedar. Afinal, nada lá é como nos outros restaurantes de Paris, seja no [...]

  5. Escargot show! « Paris na linha disse,

    Março 4, 2008 às 5:48 pm

    [...] Michelin, Paris, restaurante) Duas citações rápidas. Primeiro respondo ao Lello que sim, o Nazista do couscous estará na matéria da Próxima Viagem. E antes que as pessoas me crucifiquem e resolvam nunca mais [...]

  6. Silvio Luciano SAntos disse,

    Maio 4, 2008 às 4:11 pm

    Vou para Paris agora em julho, e achei interessante a dica. Aonde fica ??? Como faço para chegar lá ??
    Obrigado e parabéns pelas dicas

    Silvio

  7. Eloi disse,

    Maio 4, 2008 às 11:24 pm

    Ola Silvio. Obrigado pelo elogio. Não sei se você entende francês, mas segue abaixo um outro link que fala bem do restaurante. De qualquer jeito tem o endereço. Fica perto da Sacre Coeur. Mas outra dica importante: passei la esses dias e, como ja esta fazendo calor aqui agora, ele recebe ainda mais gente e tem fila mesmo. Tem que ter paciência, porque eu mesmo ja provei que a tal reserva não serve pra muita coisa.
    http://www.fra.cityvox.fr/restaurants_paris/le-petit-bleu_56561/Profil-Lieu

    Um abraço e boa viagem. Qualquer coisa estamos ai.
    Eloi

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