Tata Renée e o Chapon

Dezembro 26, 2007 at 10:59 pm (Casa e Familia) (, , )

Dois dias se passaram e na verdade pouca coisa aconteceu de emocionante aqui em Reffannes. E também nem dava, cidadezinha pacata, com as coisas mais animadas a 15, 20 km de estrada. E para piorar, época de Natal, tudo fechado. O que restou, então, foi ficar em casa, comer muito, mas muito, e depois descansar e voltar a comer um pouco mais.

No dia 24, a grande diferença aqui na igualmente pacata Mansão Monnet foi a presença da Tata Renée, uma das tias da Manue, pequenina senhora de 77 anos e muita energia. Só para se ter uma idéia, a Tata Renée chegou dirigindo seu carro, tocou a campainha e aproveitou a visita para tomar um café (da manhã) comigo e com a Manue, lá pelas 11h, quando levantávamos. Foi um momento interessante.

Depois de nos presentear com uma deliciosa “bûche”, um rocambole de chocolate especial de Natal, Tata Renée aumentou o volume do aparelho auditivo e desatou a contar suas últimas peripécias, além de boas histórias em um francês límpido e de dar inveja aos mais jovens e seus vícios de linguagem.

Da busca aos presentes malucos para o netinho – um tal joguinho chamado Puissance 4 que ela não tinha a menor noção do que se tratava -, passando à manufatura de sete rocamboles, ela se lembrou que a abundância de chocolate dos dias de hoje não era igual à época da Segunda Guerra Mundial, quando ela chegava à primeira década de vida. Na época, o pai da Manue não era nem nascido, mas 7 já eram os irmãos na família e a divisão de um bem tão precioso era, então, mais do que necessária.

Para piorar, Tata Renée nos contou que a iguaria era de qualidade bem inferior: uma pasta amanteigada levemente coberta com chocolate, para enganar a boca. Assim, a cada mês sua mãe chegava com cerca de 20 barras e distribuía entre os filhos, o que garantia em média três para cada. E uma de suas irmãs era das mais perversas: comia os dela rapidamente e ainda saía à caça de outros. A pobre da Tata Renée era uma de suas vítimas preferidas.

Depois de algumas boas histórias ela ficou para o almoço. Naquele dia tivemos como entrada radis (rabanete), ou rafanus, como ela disse, abusando do conhecimento científico, e um bom chucrute Mais tarde, ainda me dirigiu diversas perguntas sobre o Brasil e se mostrou bem informada, graças a uma conhecida que havia viajado para a América do Sul e contado algumas passagens.

Na saída, sempre muito educada, veio se despedir de mim com um largo sorriso e disse uma frase que eu só tinha ouvido na primeira aula de francês, ainda no Senac de São Paulo, e que me deixou bastante contente: “Heureuse d’avoir fait votre connaissance” e eu respondi o mesmo.

O Chapon – Na noite do dia 24 passamos só nós 4, com lareira acesa e muita tranqülidade. Como a irmã, namorado e sobrinha não estavam, o melhor foi deixado para o almoço de Noel, mas nem por isso nos faltou algo. Tivemos do bom e do melhor, como um foie gras especial e supercaro, ostras ao molho branco e sobremesas especiais, incluindo um ”precisoso” abacaxi.

No almoço tão esperado, vinhos diferentes, salmão, mais ostras e um Chapon, o nosso velho conhecido Chester. Engraçado é que aqui a forma de produzir a ave é diferente. Ao invés de entuchar o bicho de comida até ele tombar para frente e não conseguir mais andar, eles o castram e de algum modo ele vira um superfrango. Nasceu um Chapon, que custa caro, mas muito mais caro que o Chester.

Restodontê – Para encerrar, aviso que aqui na França eles também comem o tal do restodontê, piada besta comparável à do pavê (ou pra comer?). Só que como eles são muito mais chiques, eles não dizem que o resto do Natal é comida francesa como a gente, mas apenas resto.

Eloi, Tata Renée e Ms Monnet

5 Comentários

  1. Gera disse,

    Oi, Elói

    E quantos quilômetros de bicicleta para perder essa barriguinha deplorável adquirida nas comilanças natalinas? Tem de ir até Bordeaux e voltar, uma duas vezes, pelo menos. E sem tomar vinho no caminho.
    Quanto às sobras, aprendi mais uma, agora que estou ficando carioca: no Rio, e só lá, deixar a mesa com todos os restos da ceia, reaproveitar algumas coisas, e convidar só os amigos mais chegados, além da família, para acabar com o que ficou, chama “enterro-dos-ossos”.
    No Rio, ninguém se espanta quando, no dia 25, um amigo convida: vamos no enterro de fulano?
    Tata é como tantan? Ou é Tata como a mamãe, para a Monica e Adriana, filha do Nelson? E ela parece uma figurinha simpática, que vale a pena conhecer e curtir.

  2. Butt disse,

    E aí, corno!

    Porque não me falou sobre este diário virtual?! Muito legal…

    E a promessa?! Ficou para 2008?!

    Abraço!

    PS.: O Imperador vai jogá “poco”!

  3. Marta disse,

    Ótima essa sua descrição da Tata Renée. Que figurinha, heim?

    Nosso Natal aqui teve muita comida e correria pela casa. Imagine a agitação de cinco crianças a poucos minutos da chegada do Papai Noel! Quando deu meia noite, a campainha soou e as crianças correram para a porta. Apagamos as luzes e o Raul entrou vestido de Papai Noel com sacos e mais sacos de presentes. A Carol chorou, o Arthur ficou de olhos arregalados, o Mauricio e o Fe correram para abrir os pacotes e a Paty sorriu entusiasmada.

    Meu pai fazia igualzinho quando eu era pequena por isso fico extasiada quando vejo isso tudo se repetindo. É quase mágico!

    Beijos, cunhadinho. Beijos em todos vocês.

  4. Cida disse,

    Você está se dando bem com os “velhinhos”, hein! Quem diria!
    Esta senhorinha parece mesmo admirável. Só falta ela ter ajudado na Resistência aos dez anos de idade…..rs
    Mas, o melhor é que ela alegrou seu Natal sem neve.
    Um beijão para todos.

    P.S.: Seu presente acabou de chegar…..rs

  5. Vivendo bem e barato (Parte 2) « Paris na linha disse,

    [...] tarde, passeio pelo outro lado da ilha, almoço com arroz, atum, salada e ovo das galinhas da mansão Monnet e um sol desta vez mais intenso e que até deu pra bronzear. Pra fechar, banho num camping que não [...]

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