Tata Renée e o Chapon
Dois dias se passaram e na verdade pouca coisa aconteceu de emocionante aqui em Reffannes. E também nem dava, cidadezinha pacata, com as coisas mais animadas a 15, 20 km de estrada. E para piorar, época de Natal, tudo fechado. O que restou, então, foi ficar em casa, comer muito, mas muito, e depois descansar e voltar a comer um pouco mais.
No dia 24, a grande diferença aqui na igualmente pacata Mansão Monnet foi a presença da Tata Renée, uma das tias da Manue, pequenina senhora de 77 anos e muita energia. Só para se ter uma idéia, a Tata Renée chegou dirigindo seu carro, tocou a campainha e aproveitou a visita para tomar um café (da manhã) comigo e com a Manue, lá pelas 11h, quando levantávamos. Foi um momento interessante.
Depois de nos presentear com uma deliciosa “bûche”, um rocambole de chocolate especial de Natal, Tata Renée aumentou o volume do aparelho auditivo e desatou a contar suas últimas peripécias, além de boas histórias em um francês límpido e de dar inveja aos mais jovens e seus vícios de linguagem.
Da busca aos presentes malucos para o netinho - um tal joguinho chamado Puissance 4 que ela não tinha a menor noção do que se tratava -, passando à manufatura de sete rocamboles, ela se lembrou que a abundância de chocolate dos dias de hoje não era igual à época da Segunda Guerra Mundial, quando ela chegava à primeira década de vida. Na época, o pai da Manue não era nem nascido, mas 7 já eram os irmãos na família e a divisão de um bem tão precioso era, então, mais do que necessária.
Para piorar, Tata Renée nos contou que a iguaria era de qualidade bem inferior: uma pasta amanteigada levemente coberta com chocolate, para enganar a boca. Assim, a cada mês sua mãe chegava com cerca de 20 barras e distribuía entre os filhos, o que garantia em média três para cada. E uma de suas irmãs era das mais perversas: comia os dela rapidamente e ainda saía à caça de outros. A pobre da Tata Renée era uma de suas vítimas preferidas.
Depois de algumas boas histórias ela ficou para o almoço. Naquele dia tivemos como entrada radis (rabanete), ou rafanus, como ela disse, abusando do conhecimento científico, e um bom chucrute Mais tarde, ainda me dirigiu diversas perguntas sobre o Brasil e se mostrou bem informada, graças a uma conhecida que havia viajado para a América do Sul e contado algumas passagens.
Na saída, sempre muito educada, veio se despedir de mim com um largo sorriso e disse uma frase que eu só tinha ouvido na primeira aula de francês, ainda no Senac de São Paulo, e que me deixou bastante contente: “Heureuse d’avoir fait votre connaissance” e eu respondi o mesmo.
O Chapon - Na noite do dia 24 passamos só nós 4, com lareira acesa e muita tranqülidade. Como a irmã, namorado e sobrinha não estavam, o melhor foi deixado para o almoço de Noel, mas nem por isso nos faltou algo. Tivemos do bom e do melhor, como um foie gras especial e supercaro, ostras ao molho branco e sobremesas especiais, incluindo um ”precisoso” abacaxi.
No almoço tão esperado, vinhos diferentes, salmão, mais ostras e um Chapon, o nosso velho conhecido Chester. Engraçado é que aqui a forma de produzir a ave é diferente. Ao invés de entuchar o bicho de comida até ele tombar para frente e não conseguir mais andar, eles o castram e de algum modo ele vira um superfrango. Nasceu um Chapon, que custa caro, mas muito mais caro que o Chester.
Restodontê - Para encerrar, aviso que aqui na França eles também comem o tal do restodontê, piada besta comparável à do pavê (ou pra comer?). Só que como eles são muito mais chiques, eles não dizem que o resto do Natal é comida francesa como a gente, mas apenas resto.

